domingo, 6 de setembro de 2009

O pior surdo


Diz o ditado popular que o pior cego é aquele que não quer ver. Poderíamos a este acrescentar que o pior surdo é aquele que não quer ouvir.

A sociedade contemporânea apesar de ter trazido para o homem a globalização, marcada pela aproximação de todas as pessoas, cria também uma cultura de isolamentos. Parece que, quanto mais os homens se aproximam uns dos outros, mais eles percebem as qualidades e limitações dos indivíduos e se fecham em si temendo que os outros possam prejudicá-lo.

O homem cria para si mecanismos de defesa, seja material, intelectual, psicológico ou espiritual, para que possa se proteger do outro, que é sempre um desconhecido. Estamos, muitas vezes, fechados ao que pode vir até nós.

Cada pessoa vai criando seu próprio mundo. Nesse ambiente, só entra quem ou o que se quer. São criadas tantas barreiras que o indivíduo passa a aprender somente aquilo que lhe agrada ou o que pensa ser a verdade. Com isso, ele se fecha ao mistério do outro e da possibilidade que temos de aprender com ele.

O filósofo alemão Friedrich Hegel (1770-1831), afirmou que o pensamento é um processo de construção entre a tese e a antítese, a formar a síntese. Em outras palavras, a construção de um pensamento se dá por uma afirmação e, em seguida, pela negação dessa. Só com isso, é que se torna possível a formação de uma terceira e mais completa idéia, pela crítica dos pontos negativos, para que a tese se aperfeiçoe. A todo esse processo, Hegel denomina dialética.

A mesma coisa deve acontecer com o homem. Ele é chamado a questionar as próprias idéias e as que já estão formadas, não para negá-las, mas para que elas possam estar em contínuo aperfeiçoamento. Ele deve ter uma postura crítica diante dos outros e de si mesmo, sabendo apontar todas as limitações para superá-las.

Por isso, o homem deve ser dialético, ou seja, estar em contínuo processo de crescimento, de aperfeiçoamento. Mas, para que isso ocorra, é necessário negar-se a si mesmo, saber ver as próprias falhas, podendo extrapolá-las. É aí que entra a exigência de abertura ao que o outro tem a nos ensinar, ao que ele tem a acrescentar a nós.

Para isso, devemos abrir toda a nossa existência para que o outro possa entrar, nos formando com suas qualidades e até mesmo com suas limitações, considerando a pessoa humana sempre como um mistério, um mundo desconhecido que sempre foge às nossas compreensões.

Podemos ver na pessoa de Jesus Cristo a ideal postura de homem dialético, daquele que soube esvaziar-se de si mesmo e se aproximar da humanidade com toda a humildade possível. Somente quando tomamos o espírito de Cristo que, nas palavras daqueles que admiravam seus gestos, “faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem” (Mc 7, 37), podemos aperfeiçoar nossa humanidade.

Quando imitamos Seus atos podemos realmente aprender a ouvir o que o mundo tem a nos ensinar e também a falar, educando os outros pelo que temos de bom, principalmente pelos nossos atos, dando-lhes a razão de nossa fé.

Que a voz do Senhor possa tocar nossa existência e abrir (cf. Mc 7, 34) nossos sentidos para o mistério da pessoa humana. Possamos sempre aprender com o outro, que nos ensina com os bons exemplos, imitando-os, e com limitações, tornando-nos capazes de corrigi-las, não dando prosseguimento às suas falhas.

Quando sabemos aproveitar tudo o que é posto a nossa frente, de ruim ou de bom, estamos nos abrindo ao processo de ascensão do homem rumo à Perfeição. Ao olhar o mundo como um corpo místico, como um lugar de varias habilidades, funções e conhecimentos distintos, podemos já vislumbrar, mesmo que de forma imperfeita, a completude humana. Para que essa se torne plena, faz-se necessária a humildade, força motriz da comunhão entre os homens e de concretização da Realidade Divina em nossa humanidade.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 171, 05/09/2009]

Buscar o que é do alto



Toda a nossa estrutura de pensamento recebe a influência de uma filosofia que prega o antagonismo de todas as coisas. Tudo o que é posto aos nossos olhos é fruto de uma contradição: espírito-corpo; fé-razão; religião-ciência e por aí vai. Diante de tudo isso, o homem é chamado a procurar o que é melhor para si, muitas vezes negando o que é, aparentemente, contrário ao que ele escolheu.

O filósofo grego Platão, nascido no século V a. C., imaginou o mundo como uma contradição entre o mundo material e o que ele chamou de “mundo das idéias”. Esse último seria a realidade perfeita, e todo homem de bem deveria buscá-lo, mas para isso, deveria rejeitar tudo que fosse humano, material. O corpo seria uma prisão para a alma.

O problema de tudo isso, é que o homem começa a buscar realidades que estejam “superiores” a ele, e esquece de que vive em um mundo concreto, que não pode ser esquecido, tampouco negado. A ordem filosófica de Platão, levada a cabo por São Paulo, quando pede: “procurem as coisas do alto” (Cl 3, 1), é uma ordem tão presente e concreta quanto podemos imaginar.

Buscar o que está nos céus não é elevar toda a nossa atenção para aquilo que foge à nossa realidade, esquecendo daquilo que nos envolve. Entretanto, buscar o que está no alto é saber procurar o essencial nas coisas, aquilo que realmente nos motiva a buscá-las e que nos dá um sentido de ser e agir. Negar, portanto, tudo que fosse humano, seria negar toda a obra da criação, todas as ações planejadas por Deus com um fim específico: a elevação do homem para Ele.

É nesse sentido que Jesus Cristo chama a atenção dos fariseus quando esses aparentam querer buscar um mundo que esteja acima dos homens. A falsidade cresce quando são criadas regras e ações que pretendem manter os homens no alto, distantes dos outros homens, negando sua própria humanidade e, com isso, sua dimensão de criaturas.

Cristo, repreendendo-os, é incisivo: “Não adianta nada eles me prestarem culto, porque ensinam preceitos humanos. Vocês abandonam o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens” (Mc 7, 7-8). Elevar-se, para muitos, é somente para afastar-se de nossa realidade e buscar um refúgio em outro mundo. O mandamento perfeito de Deus, encarnado em Cristo, nos pede algo concreto, vivo: assumir a nossa humanidade amando Deus nos outros. Somente assim podemos elevar-nos real e concretamente para o alto.

É nesse sentido que nossa religião possui uma fé concreta, para homens e não para anjos. Como nos fala Tiago em sua carta: “A religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição e manter-se livre da corrupção do mundo” (1, 27). É humanizar, tornar concreta a Palavra de Deus, gerando novamente, assim como Maria, o Verbo de Deus, Jesus Cristo.

Que possamos ouvir a voz do autor bíblico quando nos propõe: “coloquem tudo em prática, pois isso tornará vocês sábios e inteligentes diante dos povos” (Dt 4, 9). Se Deus, que é a Inteligência em plenitude, nos dá um caminho a seguir, nada melhor do que se por a caminho. Que nossa fé possa ser voltada para homens, preocupada em ver os mandamentos do Senhor como pedagógicos, que nos conduzem para uma elevação.

Para isso, devemos efetivamente buscar o que está no alto. Não se afastando da nossa realidade, mas buscando aquele que nos mantém unidos a Deus, Jesus Cristo, o Homem-Divino. Procuremos, para isso, o essencial que existe em todas as coisas, que é a nossa dimensão de criaturas e a possibilidade de ascensão rumo a Deus.


[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 170, 29/08/2009]

domingo, 23 de agosto de 2009

Família: berço de novos cristãos


A seguir a postura de seus primeiros pais, o homem sempre tende a por a culpa das diversas crises e conflitos que ocorrem no seu meio em realidades que distantes dele. A responsabilidade pela crise financeira é sempre dos capitalistas; a crise política que afeta nosso país é causada pela corrupção dos representantes do povo; a educação, a saúde e a segurança não vão bem por que não há interesse por parte dos governantes em melhorá-la... E por aí vai.


Muitas outras afirmações poderiam ser acrescentadas a essa lista de julgamentos. Fato é, que quando queremos laçar a responsabilidade nos outros, é por que queremos tirar nosso corpo para fora da questão, ausentando-se da responsabilidade por determinado caso.


É esquecido o fato de que estamos a viver em uma sociedade cada vez mais globalizada, ou seja, cada vez mais interligada, articulada entre si. O que se leva a propor que uma ação local de qualquer que seja o indivíduo, gera repercussões globais.


É nesse sentido que devemos voltar os nossos olhares para nós mesmos, como os primeiros responsáveis por tudo que ocorre em nossa sociedade. Por meio do voto, de uma ação social, do trabalho ou por tudo que gera a interação, a pessoa humana é participante do processo de desenvolvimento de sua comunidade global.


Nesse olhar para si mesmo, a família se apresenta como local primordial para a criação desse cidadão responsável. Ela apresenta a primeira experiência de contato com o outro, que é sempre diferente, que tem algo a acrescentar ao indivíduo. São Paulo, na carta aos cidadãos de Éfeso, ilustra esse aprendizado com a pessoa do outro com a imagem da subordinação, em suas palavras ele pede: “Sejam submissos uns aos outros no temor a Cristo” (5, 21). Mais do que um rebaixamento ou subordinação, o ato de se por aos pés do outro, além de servi-lhe, nos ajuda a sempre se deixar moldar pelo o outro, pelo que ele tem a nos ensinar.


A família surge, portanto, com a exigente responsabilidade de formar verdadeiros seguidores do Cristo, aquele que soube se subordinar a uma Vontade Suprema, que se humilhou em sua humanidade, sendo Ele Deus, servindo, sendo Ele Senhor, e morrendo, sendo Ele o próprio Salvador. É essa mesma “Igreja Doméstica” que torna possível a formação de homens capazes, primeiramente de aprender, verdadeiros responsáveis pela sua realidade.


Para que ocorra essa educação para responsabilidade, faz-se necessário estar com os olhos fixos no Cristo. Assim como Josué, cercado por corrupções e idolatrias, afirmou: “Eu e minha família serviremos a Javé” (Js 24, 15), a família deve ser encorajada a gritar e ser luz em um mundo de tantas crises, sendo berço de novos Cristos, de homens que possam se aproximar do Pai, sendo verdadeiros construtores da Cidade de Deus.


Para a construção dessa verdadeira sociedade, a única via é a de Cristo, já que só Ele tem, na expressão de São Pedro, “palavras de Vida Eterna” (Jo 6, 68). Só Jesus tem o verdadeiro ensinamento, já que Ele é a Palavra de Deus encarnada, que nos conduz rumo a um Porto Seguro.


Isso não quer dizer que a família deve se sentir acima da sociedade. Pelo contrário, se ela pretende construir novos cidadãos e uma nova realidade, faz-se necessário que ela esteja presente, inserida nos problemas sociais, sabendo dar uma resposta concreta, à luz do Evangelho, à luz de Cristo.


“O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada. As palavras que eu disse a vocês são Espírito e Vida” (Jo 6, 63). A família não deve, entretanto, cair somente na “criação” dos filhos ou na sustentação material de seus componentes, mas ser ambiente de formação de novos cristãos, uma célula da grande comunidade, que é o corpo místico de Cristo, sempre em busca do Espírito que dá a Vida e torna possível o mundo perfeito, a Cidade de Deus.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 169, 22/08/2009]

Esvaziar-se para Deus

Celebrar a assunção da Mãe de Jesus, mais do que relembrar um fenômeno histórico-religioso, é um ato de olhar para aquela que soube se por diante do projeto maior que Deus tem para a nossa humanidade.


A partir do período histórico do modernismo, o homem passa a ter a capacidade de conhecer toda a realidade que o envolve. Esse conhecimento faz crescer a pretensão de que se pode “abraçar” todas as coisas. Todas elas, “visíveis e invisíveis”, passam pelo crivo da razão e, com isso, o homem passa a querer explicar tudo o que o envolve.


Longe de querer negar o valor da ciência ou da razão, fato é que o homem aproxima-se de si mesmo, aumentando exageradamente o seu valor, e nega um Absoluto, algo que deva estar superior a ele. Com isso, ele perde a possibilidade de fundamentar as suas certezas ou de alicerçar seus valores em um princípio unificador que possa direcionar as ações das pessoas e um só sentido.


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, afirma que o homem, diante das inúmeras possibilidades de conhecimento, está diante de um “mar aberto”. Sem terra firme, a pessoa humana sai em direção ao caos de sua realidade sem rumos ou princípios que dão norte ou firmam a sua vida.


Devemos ver na figura de Maria, aquela que se deixou ser guiada pelos planos divinos. Foi somente a partir do seu total esvaziamento, que a Palavra de Deus pode entrar completamente em seu ser, sendo gerada em seu espírito e em seu corpo. Toda a felicidade de Maria estava, portanto, em sua entrega ao Senhor, como ela mesmo exulta: “meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1, 47-48).


É nesse sentido que a assunção da Mãe do Cristo se inicia na própria encarnação do Verbo. Sua entrega aos planos da Providência Divina, no reconhecimento da grandeza de Deus diante de sua pequenez, foi tão plena que a Palavra se aproxima dela e, por ela, se faz Homem.


Nós, entretanto, não devemos somente contemplar admirados esses imensos mistérios. Todo aquele que se deixar guiar por Deus, pela imagem do Cristo, modelo vivo do Seu ensinamento, tornará presente e atual esse grandioso fato. Essa pessoa fará com que Deus atue em nossa história, e ela mesma se aproximará, paulatinamente, da Plenitude da Vida. É somente quando todos se submetem a realidade Absoluta, que é possível uma dupla aproximação: de Deus no homem e do homem em Deus.


Toda a humanidade é chamada a elevar-se, como Maria, a mulher que tornou Deus possível em nossa realidade através de sua perfeita humilhação, deixando-se guiar por Cristo, palavra de Deus, que nos faz entrar em comunhão Consigo, aproximando-se da plenitude na Vida. Com isso, sabendo que todos os conhecimentos e capacidades humanas são meios para se construir e edificar, ainda que de forma imperfeita, o corpo vivo de Cristo, todos eles devem estar sujeitos aos planos maiores da Suprema Providência, que quer todos próximos de Si, sendo “tudo em todos” (1 Cor 15, 28).

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 168, 15/08/2009]

O verdadeiro alimento – II




O homem, sempre teve dentro de si o desejo de felicidade. Seja quem for, qualquer que tenha sido seu período histórico, sua crença ou filosofia de vida, ele está continuamente na busca por um bem-estar. A diferença está exatamente em haver diferentes compreensões dessa “felicidade”.


Sabemos que os sofrimentos, os momentos de crise, sejam materiais, espirituais ou emocionais, estão presentes durante toda a vida do homem. É buscado um bem-estar concreto ou uma felicidade momentânea exatamente para esquecer o conflito pelo qual se passa. Pode ser que o problema seja posto de lado, mas ele não é eliminado. Nessa fuga, se está como Elias, somente adormecidos (1 Rs 19, 3s). Porém, o sofrimento sempre volta quando se acorda.


A resposta dada por Deus é a postura de Cristo, no aceitar o sofrimento como condição que nos leva a ressurreição. As dores e as imperfeições do homem estão sempre a apontar para cima, para a possibilidade de perfeição da humanidade, na aproximação de uma felicidade que não é material, por isso, plena.


É, portanto, na aproximação de Cristo e na imitação de sua pessoa que se pode dar sentido aos sofrimentos. Jesus é o alimento, que não elimina os conflitos humanos, mas dá forças na caminhada terrena (1 Rs 19, 7) em busca de uma felicidade, que não se encontrará de forma perfeita nessa vida.


O modo de aproximar-se, ainda que de forma imperfeita, dessa Felicidade Verdadeira é ouvindo as palavras de São Paulo: “Sejam imitadores de Deus, como filhos queridos” (Ef. 5, 1). Essa imitação se dá somente em Jesus, Palavra Viva, feito carne, dada a nós por Deus. É nesse sentido que o Senhor se apresenta, não como solução, mas como postura diante da vida, como alimento que dá forças ao homem para a caminhada.


Porém, queremos soluções sempre prontas, em nossas mãos, um redentor que faça tudo para nós. É esquecida, com isso, a necessária construção do Reino de Deus, que é responsabilidade humana, acompanhada pela Sabedoria divina. Foi com essa mesma postura que os judeus criticavam Jesus. Eles esperavam um salvador à cavalo, com espada na mão e não um “louco”, que pregava um modo de ser e agir totalmente contrários à postura da época. Essa é também a nossa postura quando não vemos em Cristo um modelo de homem perfeito, que torna possível a construção da verdadeira humanidade.


A promessa de felicidade é dada pelo próprio Deus, em Cristo, verdadeiro alimento, palavra viva: “Eis aqui o pão que desceu do céu: quem dele comer nunca morrerá” (Jo 6, 50). A “imortalidade” é exatamente a vida eterna, a felicidade que nunca acaba, próximos de Deus, o pleno bem-estar que o homem tanto busca.


Essa vida longe de tudo que é material, por isso, imperfeito, não se dá, porém, na negação da humanidade, mas no caminhar no processo de nossa autoconstrução contínua tendo Jesus como alimento-modelo dessa estrada. Essa trilha tem Deus como meta, fim da procura insaciável do homem por bem-estar, por uma Felicidade Completa e Infinita.


Que possamos ir aproximando-se do fim de todo homem que é a Perfeição, Deus, plena alegria do homem, seguindo os passos deixados por Jesus. Ele, que caminhou nessa terra, conheceu todas as adversidades humanas. A passar por todas elas e sair ileso, não pecando e ressuscitando após a morte, Cristo é o alimento nessa nossa caminhada rumo ao Pai celeste, que quer todos próximos de Si.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 167, 08/08/2009]

O verdadeiro alimento - I



Estamos inseridos em uma estrutura de pensamento onde tudo está fundamentado pelo cálculo. O próprio homem é transformado em meio, isto é, instrumento para fins determinados. Dentro de uma realidade capitalista, por exemplo, ele é quantificado e convertido em produto.


Nem mesmo Deus escapa dessa categoria. Busca-se uma realidade superior, por meio da religião ou mesmo na adesão a uma filosofia de vida, pelo que ela pode nos trazer, pelos benefícios concretos que vai nos proporcionar.


Após ter alimentado milhares de pessoas com pães, muitos procuraram Jesus, recebendo dele uma repreensão santa: “vocês estão me procurando, não porque viram os sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos” (Jo 6, 26).


Procuramos, muitas vezes, Deus, não pelo que Ele é em Si, ou seja, uma realidade Perfeita, mas na busca de graças e bens materiais. Do mesmo modo, aproximamo-nos dos santos, que estão em comunhão com Deus, não para seguir seus exemplos e, com isso, nos aproximar da mesma realidade santificadora, mas pelos “milagres” que eles nos trazem.


Nesse sentido, transformamos a realidade Divina, Cristo, e seus santos em mercados de dons e benefícios. Pedimos algo através de uma oração ou promessa na esperança de consegui-lo, muitas vezes nem necessitando dele, sem saber se isso vai ser bom para nós. Chegamos ao cúmulo, muitas vezes de querer fazer trocas entre a graça a ser recebida e um “compromisso” a ser cumprido. Nisso, a providência divina é posta de lado.


Nosso movimento em busca de Deus deve ser pelo que Ele é em Si. Uma realidade perfeita, a plena Felicidade que quer todos próximos e em comunhão Consigo. Possamos tomar os santos como exemplos daqueles que se entregaram à providência de Deus, consigamos graças e bênçãos na imitação de cada um deles. A conquista da felicidade que buscamos nessa vida é consequência lógica da aproximação da Felicidade Plena, que é Deus.


A única graça que devemos buscar é a imitação do Cristo, o maior dos santos, o Deus-homem. É por ele que Deus nos dá o verdadeiro pão do céu, pois a única realidade que pode satisfazer os nossos desejos e nos fazer conquistar o que precisamos é a aproximação da vida de Jesus para as nossas existências.


O Apóstolo nos adverte: “É preciso que vocês se renovem pela transformação espiritual da inteligência, e se revistam do homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vem da verdade” (Ef 4, 23-24). O maior benefício que devemos buscar é uma transformação interior tendo o Cristo como modelo perfeito. É somente a partir na ação espiritual da inteligência, sopro Divino que nos motiva a buscar a felicidade da vida, que se pode realizar uma mudança efetiva de nós e de nosso contexto, repletos das graças e benefícios divinos.


Os pães que nessa vida recebemos de Deus, ou seja, as graças e os bens, são sinais que apontam para o Pão do Céu, dado por Deus em Cristo. Deus, na pessoa do Senhor Jesus, por meio dos santos está sempre com as mãos abertas para nos dar o que nós verdadeiramente precisamos. Basta-nos olhar e abraçar o Senhor, verdadeiro alimento para as nossas vidas, para podermos nos aproximar das felicidades que buscamos nesta terra, aproximando-se a cada dia da Felicidade maior.

domingo, 26 de julho de 2009

Somos um corpo




Há um só corpo e um só Espírito, assim como a vocação de vocês os chamou a uma esperança: há um só Senhor, uma só fé, um só batismo.” (Ef 4, 4-5)

O homem, estando no ápice de toda a criação, ganha algo que lhe é peculiar: o sopro divino. Essa participação, ainda que imperfeita, junto ao Deus criador, nos faz participar também de Sua unidade. O mesmo Deus que cria é aquele que atrai todos para si, para sermos um com Ele. É nesse sentido que se manifesta a busca de todos os homens pela felicidade, uma única Felicidade.

Entretanto, o pensamento humano, a seguir uma estrutura filosófica que deixa Deus de lado e toma o pensamento racional como centro de toda a ação moral, cria uma relação social voltada para a ação dos indivíduos tomados de forma isolada, isto é, um individualismo generalizado.

Esse esquecimento de um Deus que dá ao homem um norte para a sua vida, isto é, um caminho único para seguir, cria uma infinidade de “éticas”, gerando uma diversidade de ações. O problema surge exatamente quando essa diversidade de “morais” começa a se chocar, quando os meus princípios colidem com os princípios do outro, quando minha busca pela felicidade gera a negação do outro.

A idéia de uma comunidade orgânica proposta por São Paulo viria solucionar esse choque de princípios e valores. A sociedade funcionaria semelhante a um corpo, onde cada órgão trabalharia para o bem comum. Cada um teria a consciência de que a diversidade de ações e habilidades tem como objetivo um fim único, a Felicidade Humana.

Diz o Apóstolo: “De fato, tal como num só corpo temos muitos membros e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora sendo muitos, formamos em Cristo um só corpo, e somos, cada um por sua parte, membros uns dos outros” (Rm 12, 13). Cada indivíduo trabalharia, com suas singulares capacidades, para o bem do todo, através de um eixo norteador, uma realidade Perfeita que nos uniria.

Essa ação, mesmo diversa, para a felicidade comum levaria a todos para um mesmo fim. A mudança está exatamente no fato de que não haveria mais uma busca isolada por felicidades distintas, mas uma articulação de diversas contribuições individuais, de vários modos, para uma única realidade, que nós chamamos de Deus.

Nossa Igreja compreende bem essa diversidade de carismas quando reconhece a santidade de pessoas que procuraram Deus de diversos modos: papas, soldados, irmãos consagrados e mesmo leigos. Cada um enriquece a Igreja, Corpo de Cristo, quando nos ensina que o caminho para a beatitude pode ser percorrido de vários modos.

Foi exatamente esse sentimento de unidade que saciou a fome do povo que estava diante de Jesus. Foi o sentimento de unidade e de organização que alimentou todas aquelas pessoas e alimenta a nós hoje. Somente a esperança em um único Deus pode, concretamente, saciar a nossa busca por um sentido de vida. Não são os pães comprados pelos homens que vão dar a nós uma felicidade, como bem disse o Senhor: “Não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu” (Jo 6, 32).

É somente a esperança em uma realidade Perfeita, que unifica todos em Si, formando-nos um só corpo, que pode satisfazer nossa procura por felicidade. Mesmo considerando-nos limitados, somos “centelhas do Divino”. E é somente por essa fragmentação, a se tornar comunhão, que podemos tornar real a presença de Deus em nossa sociedade.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 166, 25/07/2009]