segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Santidade… eis o caminho


O homem de hoje, mais do que nunca, está sendo marcado pelo erro da idolatria. Tomamos coisas, pessoas ou idéias e as transformamos em deuses. Elas estão acima de tudo e de todos e, para nós, são princípios e fim de todas as nossas ações.

Essa absolutização e divinização das coisas nos distancia da realidade a qual vivemos e do compromisso que devemos ter por ela. Quando nos pomos debaixo de algo que é a nós absoluto, deixamos de agir e ficamos imóveis diante de determinada realidade, isso só deve acontecer com Deus, mas infelizmente ocorre com pessoas, idéias ou até objetos que tomamos como divino. O dinheiro, os bens materiais, alguns homens e até certas leis ou idéias são exemplos desses “deuses”.

Muitos de nós olhamos para os santos com essa mesma perspectiva. Contemplamos sua história de vida, seu testemunho e suas obras e esquecemos a prática que deve surgir a partir de tal admiração. Se a pessoa ou a idéia por quem optamos não nos torna capazes de construir relações fraternas e justas “vã é a nossa fé”.

Ao comemorarmos o Dia de todos os Santos, devemos lembrar não de pessoas distantes de nossa realidade que conseguiram construir uma vida beata, feliz aos olhos de Deus. Vejamos nesses homens o testemunho vivo de uma existência edificada sob a pessoa de Cristo, tendo-O como princípio e fim de toda a sua busca pela felicidade.

É nesse sentido que João, no livro do Apocalipse, nos apresenta os santos como aqueles que estão próximos de Deus e, portanto, da Suprema Alegria. Ao indagar sobre quem seriam tais homens, um ancião responde: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangre do Cordeiro” (Ap 7, 14).

A conquista de uma vida feliz, não se constitui por meio de uma lógica humana de benefícios e prazeres, mas por meio de sacrifícios e renúncias, na aceitação da vida em sua dimensão contingente, isto é, de variação contínua entre angústia e alegria, prazer e dor, etc.

A pureza de nossas “vestes” (Ap 7, 13), isto é, de nosso testemunho de vida só se torna real a partir do momento que tomamos alguém como exemplo, caminho a ser seguido. Os santos, nesse sentido, não são exemplos isolados a serem “adorados”, mas aquelas pessoas que tomaram o Cristo como meta de suas ações, associando-se ao Seu modo de ser e agir para construir uma vida de santidade, uma existência em plenitude.

Com isso, todo aquele que se associa ao Deus-Homem também se “diviniza-se”, santifica a sua vida, encontrando, assim, um sentido para a sua existência, como bem esclarece São João em sua primeira Carta: “Todo aquele que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (3, 3).

Cristo, ao propor as bem-aventuranças, estava a caracterizar-se a si mesmo. Todos os ensinamentos de Jesus foram assumidos por Ele mesmo como prova de sua possibilidade, na promessa de uma vida “divina” para todos os que os tomassem para si, comprovado por Sua ressurreição.

Que saibamos ver tais ensinamentos, não apenas como um texto bonito para ser lido ou contemplado, mas como um norte, algo que dá uma direção para a nossa vida prática. Possamos compreender que a lógica do mundo não é a mesma da de quem quer viver uma vida fundada no chão de nossa realidade, no contato fraterno e justo com o outro e com os olhos fixos em Jesus.

A santidade, deste modo, não é uma opção, mas uma obrigação de todo aquele que quer estar comprometido com a construção do Reino de Deus, de uma sociedade que tem a vida como princípio fundamental e Cristo como princípio e fim de toda opção. Somente por meio dessa preferência de vida, é que se pode iniciar a construção de uma sociedade mais elevada, divinizada, tornando concreto o Reino dos Céus.
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[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 179, 31/10/2009]

Jovens... caminhando à luz de Cristo


É marca em uma sociedade como a nossa, caracterizada pela valorização das pessoas pelo que elas podem contribuir positivamente, a visão os jovens como aqueles que “não sabem o que querem”, “não têm perseverança nos seus compromissos” ou “nunca estão firmes em uma idéia ou responsabilidade”. Eles estão sempre à margem de nossa comunidade e de seus interesses, “à beira do caminho”.

A psicologia nos ensina que a adolescência é uma fase de transição. O jovem deixa a estrutura de proteção dos pais e se prepara para a autonomia da idade adulta. É a fase do “nem”: nem é criança, nem adulto. É uma etapa, portanto, marcada por mudanças físicas, psicológicas, afetivas e intelectuais.

Nesse sentido, o que falta, muitas vezes é um norte para que o jovem possa se fixar. Seja por meio de uma idéia ou uma pessoa, fato é que muitos procuram algo para se sedimentar e criar bases sólidas para construção de sua maturidade. Essa busca por um fundamento, porém, muitas vezes se desvia do plano correto e acaba levando o jovem para a busca uma felicidade enganosa: no uso de drogas, bebidas alcoólicas, na prostituição ou em outros vícios.

Entretanto, qualquer que seja o caminho trilhado por eles, uma coisa é certa: estão querendo ser felizes. Do mesmo modo que Bartimeu, que era cego e pobre, gritava pela ajuda de Jesus e era repreendido por muitos, os vícios que afetam nossos jovens ou mesmo sua falta de perseverança em qualquer que seja o compromisso são também pedidos de ajuda, eles estão querendo uma luz. Esse grito, no entanto, é disfarçado por preconceitos ou outras repreensões sociais.

Cristo, como verdadeira e única palavra de Deus foi a resposta para aquele homem. Ao procurá-lo e se aproximar do Jesus, ele conseguiu abrir os olhos, começou a ver o verdadeiro caminho para sua vida e para a felicidade. O encontro pessoal com Nosso Senhor torna-se, portanto, o marco principal para aquele que quer um sentido para a própria existência e não o encontra em bens materiais ou humanos.

Somente Cristo é aquele que abre os nossos olhos para que possamos construir a nossa felicidade. Entretanto, isso não se dá por milagre ou ação vinda de fora. Temos que gritar à Deus, clamar para que Ele ouça nossa prece, deixar o que nos pesa, saltar em sua direção e se aproximar do seu modo de ser e agir (cf. Mc 10, 50). Somente a partir de nossa opção preferencial por Cristo podemos dar uma orientação eficaz para a nossa vida e ser, a partir daí, luz para os povos.

Que possamos também nos sentir responsáveis por nossos jovens. Nós que, pelo batismo, recebemos o sacerdócio comum dos fiéis, devemos ouvir a voz do Apóstolo e nos associar à figura do verdadeiro sacerdote que: “Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Hb 5, 2).
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Saibamos olhar com outros olhos para a nossa juventude, pois mesmo os que passaram por ela, “ilesos” ou apenas “feridos”, sabem que não é um momento tão fácil de viver. Aprendamos a ter compaixão e não pena dos que estão no vício ou em caminhos que não contribuem param a formação de homens comprometidos com a vida ou com a construção de uma comunidade justa e fraterna.

Que, vendo a experiência da Missão Jovem em nossa Diocese, possamos olhar para muitos de nossos jovens e dizer-lhes: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama”(Mc 10, 49). É somente por, com e em Cristo, que podemos buscar a verdadeira felicidade, que não se acaba com o tempo e que não pode ser roubada nem corrompida. É Jesus o nosso único prazer que dura eternamente.
[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 178, 24/10/2009]

Evangelizar: Deus está no meio de nós

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Neste domingo, 18 de outubro, a Igreja celebra o Dia Mundial das Missões. Por essa ocasião, o Papa Bento XVI escreve uma mensagem para este momento, tendo como título as palavras do livro do Apocalipse de São João: “As nações caminharão à sua luz” (21, 24).

A atender a ordem dada por Cristo e realizando a sua dimensão universal, a Igreja Católica se sente chamada à missão. Essa ação, porém, não se restringe somente aos pastores ou aos que são consagrados à Deus, mas a todos os que querem seguir os passos de Jesus.

O mandato missionário de Cristo para a Igreja de anunciar o evangelho a todos, tornando-os Seus discípulos (cf. Mt 28, 19) não é, como lembra o Santo Padre, retomando os seus predecessores, “para ampliar o seu poder ou reforçar o seu domínio, mas para levar a todos Cristo, salvação do mundo”. A ação missionária de evangelização não é, portanto, uma catequese ou uma transmissão do pensamento da Igreja, mas o anúncio de uma Pessoa e do Seu modo de ser e agir.

O termo evangelho, que provém do grego, significa boa notícia, revela de forma simples e objetiva qual deve ser a atitude missionária. A evangelização nada mais é do que a revelação para todas as pessoas do fato mais importante para a nossa vida presente no Evangelho. Os textos dos evangelistas resumem-se em uma mensagem: Emanuel! Deus está conosco, Ele está presente em nossa humanidade.

A ação, portanto, missionária da Igreja no anúncio da pessoa de Cristo não necessita de muitos movimentos, grandes espetáculos e muitos aplausos, mas no gesto de mostrar como Deus se faz, em Cristo, próximos de nossa humanidade.

Essa presença de Deus em nossa existência dá aos homens um novo sentido para as suas vidas. Diante de um mundo que parece estar próximo do caos, de uma política que só quer os interesses particulares, de homens que promovem o sofrimento humano, o Senhor vem nos mostrar uma saída: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 16).

A glória de uma vida feliz só pode ser construída na nossa aproximação com o Cristo, na participação com o seu cálice (cf. Mc 10, 38), isto é, participando de seu sofrimento quando sabemos sofrer com o outro, no momento em que aprendemos a sentir compaixão do outro. Nesse sentido, com a aproximação de nossos sofrimentos e os de nossos irmãos aos de Cristo, damos um sentido a eles, sabemos que eles não são inúteis.

Assim, o anúncio da Pessoa do Cristo, da presença de Deus em nossa vida, deve ser motivado por um sentimento de compaixão, um amor pelo outro ao ponto de querer sofrer com eles, ou até mesmo, por eles. Assim foi Deus quando carregou os nossos crimes e foi, por nós, condenado (cf. Is 53, 10-11).

Contrário a isso está a postura de muitos de nós, quando pensamos a evangelização como um grande movimento humano, digno de honra, glória e aplausos. Esquecemos, por outro lado, a atitude evangelizadora que devemos assumir nas pequenas ações de nossa vida. Uma palavra de conforto, um gesto de carinho, uma ação caritativa ou até mesmo um silêncio são também missões, evangelizações, um grito da presença de Deus nas nossas ações cotidianas.

Que nós possamos pedir ao Cristo essa compreensão, Ele que compreende as nossas fraquezas, pois foi homem como nós (cf. Hb 4, 15), de saber santificar a si e aos outros, por meio de sacrifícios cotidianos, palavras e pequenos gestos, mostrando, assim, a Presença Divina que há em nossa humanidade.

Sejamos constantes missionários, tenhamos a força de anunciar a Pessoa de Jesus, sendo para os outros novos Cristos, anunciando a verdadeira possibilidade da felicidade que se encontra somente em Deus. Ele que, em Seu Filho, é luz para os povos.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 177, 17/10/2009]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Negar-se para ser




Nos últimos dias, os meios de comunicação denunciaram o caso do roubo das provas do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio, que seria aplicado em todo território nacional no último fim de semana. Mais do que responsabilizar essa ou aquela pessoa, devemos refletir sobre o que está por trás desse ato. O que levou alguém a praticar tal crime? Quais interesses estavam – e ainda estão em jogo?

Outro caso chamou a atenção aos de ouvidos atentos. No domingo passado, um político, sendo entrevistado por uma repórter de um programa humorístico, em um canal aberto, deixou escapar um pensamento que, por mais que esteja se fixando na cabeça de muitos de nossos jovens, não educa ninguém e não constrói cidadãos comprometidos e responsáveis pela sociedade. Disse a autoridade política: “Quem não cola, não sai da escola”.

Muitos de nossos sonhos, que tem como fim último a construção de nossa felicidade, são projetados sobre falsos valores ou concepções. Queremos uma boa formação, um emprego estável e um ótimo salário e esquecemos de que tudo isso não se realiza em passe de mágica. Todas as coisas que o homem quer para si não se constrói a não ser por meio de sacrifícios, conflitos e renúncias.
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O jovem rico que procurou Jesus tinha o desejo que é comum a todos os homens: a vida eterna (cf. Mc 10, 19s). Ele estava buscando a vida feliz que todos procuram, mesmo que alguns busquem-na de modo equivocado. Mesmo cumprindo todos os preceitos sociorreligiosos, o jovem sabia que aquilo não o faria feliz. Insistindo na pergunta, ele recebe uma resposta que tinha dificuldades de ouvir e abraçar: “vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (Mc 10, 2).

Muitas vezes, só queremos fazer o que é bom e prazeroso para nós. Desviamos, do caminho da vida feliz quando esquecemos que toda construção passa pela renúncia de muitos de nossos desejos, para a escuta dos projetos divinos.

O mesmo caminho seguiu o rei Salomão. Ele não desejou um grande império, grandes riquezas, nem muitas terras. Salomão pediu a Deus somente a sabedoria. Toda a sua felicidade seria construída por meio de uma luta árdua, tendo sempre a sabedoria de Deus como norte para sua realização. Ela, que tudo conhece (cf. Hb 4, 13), sabe os nossos interesses, conhece o que é melhor para nós.

Como próprio afirma Salomão no livro da Sabedoria: “Com ela [a Sabedoria], me vieram todos os bens de suas mãos, riqueza incalculável (7, 11). Cumpre-se, assim a promessa do Cristo, quando nos impele: “[...]em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas” (Mt 6, 33). Riqueza, conhecimento e virtudes devem ser utilizadas somente como meios, tendo-se a construção de uma vida feliz como o único objetivo de nossas ações.

Quando fixamos nosso olhar na edificação de nossa santidade e na construção do Reino de Deus como único fim de nossas ações, todas as coisas que necessitamos nos são dadas gratuitamente.

O furto das provas do ENEM ou o pensamento do político sobre a postura do aluno na escola refletem, entretanto, um ideal conformista. Projetamos muitos sonhos, mas não queremos construí-los. Não se quer mais estudar ou trabalhar para a edificação de um ideal. Pelo contrário, queremos que tudo esteja em nossas mãos, pronto e acabado.

Quem não tem coragem de se sacrificar ou renunciar certos valores ou desejos, despojando-se de si mesmo em função do serviço ao próximo, dificilmente consegue seguir os passos da pessoa de Cristo. Nesse sentido, se está afastando o Reino dos Céus, isto é, a comunhão com a realidade de suprema alegria que é Deus.

Que nós tenhamos a consciência e a coragem de pedir somente uma coisa para a construção de nossa vida em plenitude: a sabedoria divina. Através dela, nós temos forças e ânimo para enfrentar os sacrifícios e abnegações, sendo os principais agentes da formação de nossa santidade e da construção paulatina e efetiva do Reino dos Céus.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 176, 10/10/2009]

domingo, 4 de outubro de 2009

Fidelidade do Sacerdote

Em uma cultura de pensamento tão fragmentado e machista como a nossa, crescemos com a idéia de que o padre é aquele que “não casa”. Mesmo sendo de fato, desenvolvemos outro pensamento mais complicado de se conceber: o padre não vai assumir compromissos, sendo livre para o seu ministério.

A viver o Ano Sacerdotal, o tema nos propõe um grande ensinamento: “Fidelidade do Sacerdote”. O padre, contrário do que muitos possam pensar, é chamado a assumir um compromisso tão exigente quanto o matrimônio, só que em uma modalidade diferenciada.

A pessoa, ao assumir a opção do sacerdócio ministerial, não deve esquecer as dimensões que não essenciais para todo indivíduo. Ser homem, pai e fiel em sua comunidade

Ser homem, no sentido de que, configurado ao Cristo, o padre será responsável pela proteção de uma comunidade. Deve sentir-se, por isso, comprometido pela pessoa humana, ser responsável pelo próprio homem a partir da virtude da compaixão.

A assumir a pessoa do Cristo Pastor, o sacerdote ministerial não pode perder a sua dimensão paternal. Mesmo não gerando filhos biológicos, o padre tem a responsabilidade de assumir um rebanho muito maior e mais exigente do que uma família constituída pelo matrimônio, que é a comunidade paroquial, diocesana ou do mundo inteiro.

O padre não é livre para assumir um ministério, ele apenas assume outro compromisso. Esse também requer um vínculo essencial para a sua manutenção, que é a fidelidade. Assim como qualquer outro compromisso que o homem venha a assumir, ele é convocado a ser fiel a sua vocação, pois essa, como seu próprio nome já o diz, é um chamado de Deus, o que ele quer para nós.

Tais características não devem, como já dito, ser assumidas apenas pelo padre, mas por todos nós, que recebemos um sacerdócio através do nosso batismo e somos chamados a entregar nossa vida como contínuo sacrifício de louvor a Deus.

Essa busca pela fidelidade a um compromisso, entretanto, acarreta limitações emocionais, afetivas ou materiais que, em qualquer que seja o compromisso, requer paciência e perseverança por parte daquele que quer crescer na aproximação de Deus em busca de sua felicidade.

Essa espera paciente pela resposta de nossas dificuldades requer um despojamento total de si, sabendo deixar de lado tudo o que possa ser motivo de pecado, sabendo construir, paulatinamente, o nosso coração, aproximando-o ao do Cristo, Cabeça e Pastor de Sua Igreja.

É nesse sentido que a ordenação, assim como o matrimônio, não fará milagres para a pessoa que faz tal opção. Tais sacramentos são sinais de uma construção que deve ser contínua. O sacerdócio, com isso, torna-se como um contínuo “namoro” daquele que faz a opção pelo pastoreio em uma comunidade, aproximando-se continuamente, mas com suas falhas, de um ideal de pastor que se encerra em Jesus.

O compromisso, qualquer que seja ele, requer, portanto, toda uma entrega total de si para o bem do outro, para a melhor construção de sua missão específica. Por isso que é exigido que os padres façam somente uma opção: pela imitação do Cristo no compromisso com uma comunidade.

O sacerdote ministerial é chamado a ser fiel a esse ideal. Para isso, faz-se necessária a fidelidade à pessoa humana, ao compromisso com o próprio homem, sentido-se responsável por ele. A imitação do Cristo no chamado universal à santidade desenvolve-se, portanto em chamados específicos.

O homem é chamado a se despojar de suas vontades e se entregar ao outro como sinal de um compromisso que só se constrói de forma encarnada, isto é, concreta e em prol do homem. Somente assim é que se pode construir a presença de um Deus que se faz sacramento para elevar os homens para Si.

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[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 174, 26/09/2009]



Crescer no serviço

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Em uma cultura de pensamento tão fragmentado e machista como a nossa, crescemos com a idéia de que o padre é aquele que “não casa”. Mesmo sendo de fato, desenvolvemos outro pensamento mais complicado de se conceber: o padre não vai assumir compromissos, sendo livre para o seu ministério.

A viver o Ano Sacerdotal, o tema nos propõe um grande ensinamento: “Fidelidade do Sacerdote”. O padre, contrário do que muitos possam pensar, é chamado a assumir um compromisso tão exigente quanto o matrimônio, só que em uma modalidade diferenciada.

A pessoa, ao assumir a opção do sacerdócio ministerial, não deve esquecer as dimensões que não essenciais para todo indivíduo. Ser homem, pai e fiel em sua comunidade

Ser homem, no sentido de que, configurado ao Cristo, o padre será responsável pela proteção de uma comunidade. Deve sentir-se, por isso, comprometido pela pessoa humana, ser responsável pelo próprio homem a partir da virtude da compaixão.

A assumir a pessoa do Cristo Pastor, o sacerdote ministerial não pode perder a sua dimensão paternal. Mesmo não gerando filhos biológicos, o padre tem a responsabilidade de assumir um rebanho muito maior e mais exigente do que uma família constituída pelo matrimônio, que é a comunidade paroquial, diocesana ou do mundo inteiro.

O padre não é livre para assumir um ministério, ele apenas assume outro compromisso. Esse também requer um vínculo essencial para a sua manutenção, que é a fidelidade. Assim como qualquer outro compromisso que o homem venha a assumir, ele é convocado a ser fiel a sua vocação, pois essa, como seu próprio nome já o diz, é um chamado de Deus, o que ele quer para nós.

Tais características não devem, como já dito, ser assumidas apenas pelo padre, mas por todos nós, que recebemos um sacerdócio através do nosso batismo e somos chamados a entregar nossa vida como contínuo sacrifício de louvor a Deus.

Essa busca pela fidelidade a um compromisso, entretanto, acarreta limitações emocionais, afetivas ou materiais que, em qualquer que seja o compromisso, requer paciência e perseverança por parte daquele que quer crescer na aproximação de Deus em busca de sua felicidade.

Essa espera paciente pela resposta de nossas dificuldades requer um despojamento total de si, sabendo deixar de lado tudo o que possa ser motivo de pecado, sabendo construir, paulatinamente, o nosso coração, aproximando-o ao do Cristo, Cabeça e Pastor de Sua Igreja.

É nesse sentido que a ordenação, assim como o matrimônio, não fará milagres para a pessoa que faz tal opção. Tais sacramentos são sinais de uma construção que deve ser contínua. O sacerdócio, com isso, torna-se como um contínuo “namoro” daquele que faz a opção pelo pastoreio em uma comunidade, aproximando-se continuamente, mas com suas falhas, de um ideal de pastor que se encerra em Jesus.

O compromisso, qualquer que seja ele, requer, portanto, toda uma entrega total de si para o bem do outro, para a melhor construção de sua missão específica. Por isso que é exigido que os padres façam somente uma opção: pela imitação do Cristo no compromisso com uma comunidade.

O sacerdote ministerial é chamado a ser fiel a esse ideal. Para isso, faz-se necessária a fidelidade à pessoa humana, ao compromisso com o próprio homem, sentido-se responsável por ele. A imitação do Cristo no chamado universal à santidade desenvolve-se, portanto em chamados específicos.

O homem é chamado a se despojar de suas vontades e se entregar ao outro como sinal de um compromisso que só se constrói de forma encarnada, isto é, concreta e em prol do homem. Somente assim é que se pode construir a presença de um Deus que se faz sacramento para elevar os homens para Si.


[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 173, 19/09/2009]


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O segredo da vida


O século XXI está sendo marcado por uma postura cada vez mais pluralista, complexa e dinâmica de encarar a realidade. Diante dessa rede de incertezas, muitas “fórmulas mágicas” surgem para que se possa buscar uma vida sempre mais fácil, cômoda e feliz.

O homem, estando inserido nessa mesma estrutura de pensamento, é levado a uma contínua busca de instrumentos que possam dar uma segurança para a sua vida. É nesse espaço que entram os famosos livros de autoestima: “Mudar a vida em doze semanas”, “Dez dicas para ser feliz”, “Quinze meios para um bom relacionamento”, “O segredo para a vida feliz”... Para tudo na vida existe uma resposta pronta.

Esses e muitos outros artifícios fáceis para a felicidade transformam realmente o homem em algo diferente: em objeto que pode ser mudado com facilidade. O indivíduo que passa a buscar mecanismos mágicos para a sua alegria esquece uma coisa muito simples: ele é um ser humano, e como tal, não cabe em fôrmas pré-estabelecidas.

O filósofo contemporâneo francês, Edgar Morin, afirma o homem como um ser complexo. Segundo ele, a pessoa humana é uma interação entre as dimensões biológicas, emocionais, espirituais, sociais, racionais, ou seja, como aquele “que é tecido em conjunto”. Ele não pode ter a sua pessoa fragmentada em parcelas, tampouco ser compreendido como um objeto a ser transformado por meio de fórmulas práticas.

Faz-se necessário, por isso, abrir-se para uma maior complexidade que é a pessoa humana, como ser que extrapola os nossos conhecimentos. Como aquele que, sendo imagem e semelhança do Divino, é também insondável.

Foi nesse mesmo sentido que Pedro foi repreendido por Jesus Cristo quando não aquis compreender os Planos Divinos que, muitas vezes, vão de encontro aos do homem. Quando Jesus disse que iria passar pelo sofrimento da cruz até a morte, o discípulo não o compreende, por isso rejeita tal ideia, recebendo, assim, a repreensão do Mestre: “Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33).

Por isso, a fórmula perfeita para a vida feliz se resume em uma palavra: Jesus Cristo. Somente na aproximação de nossa vida à de sua pessoa, podemos construir uma vida em plenitude. Recebemos dele mesmo a promessa para a vida feliz: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si meso, tome a sua cruz e me siga” (Mc 8, 34). Segui-lo, entretanto, requer algo que muitas vezes parecemos esquecer: viver a vida como ela é de fato, aproveitando todas as oportunidades que nos são dadas.

Somente quando tomamos nossa vida como uma rede de dores, felicidades, tristezas, trabalhos, alegrias, cansaço é que estamos nos associando ao Cristo, dando um sentido a minha realidade e encontrando a vida feliz.

O profeta Isaías parece ter compreendido e encontrado esse sentido da vida quando afirma: “O Senhor Javé me ajuda, por isso não me sinto humilhado; endureço o meu rosto como pedra, por que sei que não vou me sentir fracassado” (50, 7). Quando encontramos tal sentido, descobrimos a felicidade tão almejada, que vai além de qualquer fórmula ou segredo.

Saibamos ver em Jesus o único caminho para a vida plena e em todas as fórmulas ou “segredos” da vida feliz somente artifícios de redução do homem a mero objeto. Que possamos construir o sentido da nossa fé na imitação da pessoa de Cristo, sabendo conformar-se toda a nossa vida ao Seu modo de ser e agir.

Vejamos tal construção não por meio misteriosas fórmulas ou grandes segredos para a vida feliz, mas como algo concreto, que passa por uma inicial mudança de vida e um gradativo processo de conversão de nossa existência à realidade de Suprema Felicidade.
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[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 172, 12/09/2009]