domingo, 26 de julho de 2009

Cristo: o mestre perfeito


Quando o homem por suas capacidades físicas e intelectuais acha-se tão suficiente ao ponto de querer negar uma realidade perfeita que lhe esteja superior, ele retoma e atualiza a atitude de nossos primeiros pais: o pecado original. A negação de uma realidade mais ampla e complexa, que nossos sentidos ainda não podem tocar de forma plena é a negação do próprio Absoluto, Deus, Aquele que consegue “ver tudo”.

A sociedade, a partir do período moderno, relativiza o valor de Deus e de uma ética religiosa colocando sobre eles a técnica. O homem passa a querer abraçar toda a realidade que o cerca pela aplicação de métodos que tem a pretensão de compreender a realidade completamente, dividindo e verificando todas as coisas. O problema é iniciado quando essa técnica torna-se absoluta. O homem passa a utilizá-la de forma tão mecânica e irrefletida que a torna soberana. A técnica torna-se senhora de seus próprios criadores.

Martin Heidegger (1889-1976) (leia-se Martin Raideger), filósofo alemão, propõe uma “serenidade para com as coisas” de modo a relativizar o valor dos métodos, reduzindo-o a sua função originária. O homem é chamado a ser senhor de suas criações, necessita de saber que a técnica e seus resultados são meios para o bem do homem, de todos os homens. Se há algum problema social, mesmo quando o progresso científico está indo bem, é por que algo está errado, os meios estão sendo utilizados de forma equivocada. É preciso refletir, considerar o valor da pessoa humana como fim último de todas as ações sociais, políticas e tecnológicas.

O profeta Jeremias dá um puxão de orelha em nós, sacerdotes, quer batismais ou ordenados, quando nos achamos responsáveis ou donos das obras divinas e do Corpo que Cristo nos deixou, que é a Igreja. Quando nos consideramos possuidores dos bens divinos e de seu reflexo nas obras concretas, negamos Deus e transferimos a responsabilidade das ações para as nossas mãos. Elas, como os sentidos, que são falhos, tenderá a ser perecível transformando as propostas da Providência Divina em técnicas meramente humanas, falíveis por si só.

O profeta ameaça: “Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho...” (23, 1). Dentre as limitações humanas, chegando a pretensão de acharmos autosuficientes, Deus promete pela boca de Jeremias: “...eu farei brotar para Davi um broto justo. Ele reinará como verdadeiro rei e será sábio pondo em prática o direito e a justiça no país” (23, 5), esse é Jesus Cristo, perfeito Pastor, a plenitude do modelo de ser e viver. Ele sim, mesmo humano, nas palavras do Apóstolo, “é a nossa paz” (Ef 2, 14). Nessa proposta, todo aquele que se afirmar dono do rebanho ou o pleno responsável pelas ações humanas, receberá a mesma repreensão, uma censura Providencial.

Nosso Senhor, ao perceber a atitude dos apóstolos (cf. Mc 6, 30) quando estes voltaram de suas missões, levou-os à compreensão de que aquelas ações não eram humanas, mas Divina. Os discípulos e até mesmo o Cristo eram instrumentos que deveriam levar todos para Deus, “num só Espírito” (Ef 2, 14).

O convite de Cristo para que eles fossem, junto com Ele para um lugar deserto (cf. Mc 6, 31), não foi para que se afastassem das pessoas, mas para que houvesse um verdadeiro esvaziamento das pretensões humanas e um entregar-se aos planos Divinos providenciais e perfeitos.

Deus, em Cristo, plenamente humano, por isso perfeitamente divino, também nos convida a essa kénosis, a um esvaziamento de nossas pretensões de querer ver Deus ainda nesta vida, de querer “agarrá-lo” com nossas mãos e demais sentidos. Ele nos quer como instrumentos, como meios não absolutos, que levam todos para aquele que é Plenamente Divino, por isso, imaterial.
[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 165, 18/07/2009]

domingo, 12 de julho de 2009

Deus nos quer livres



Todo homem é chamado a um desenvolvimento, seja moral, psicológico, corporal ou espiritual. Porém, esse progresso não se dá de forma definitiva, em um tempo específico e determinado. Essa ascensão do indivíduo em busca de uma Perfeição, que a teologia bem conceitua como santidade, só pode ocorrer de forma gradativa, livre e autônoma. Entretanto, atualmente muito se fala e pouco se compreende dos conceitos de liberdade ou autonomia.

O conceito de autonomia vem do grego, significa uma lei (nomos) que é dada a si mesmo (autos). O homem é chamado a agir de forma autônoma criando leis que vão regular a sua vida. Não se fala aqui, no entanto, de uma relativização das regras sociais em virtude dos desejos individuais.
As regras, normas e limites que são postas à nossa frente devem ser abraçadas por nós. Devemos concretamente torná-las parte de nossa moral, não como uma lei que vem de fora e nos obriga a algo que eu não quero, mas como uma proposta de caminho que já foi pensada e seu valor reconhecido.

Todavia, nenhuma regra deve ser tomada como inquestionável, isso acabaria com toda a proposta de crescimento que é marca do próprio homem e que reflete em seu contexto. Para que haja, portanto, uma ação autônoma, não devemos buscar novas regras de vida para seguir, mas a continuação das que já existem, compreendendo-as ou questionando-as para o seu aperfeiçoamento.

Santo Agostinho, filósofo e teólogo do século IV, afirmou que para que o homem pudesse buscar a Suprema Perfeição com liberdade, ele recebera o livre-arbítrio. Deus não queria que todos se aproximassem dele como algo mecânico, mas por livre iniciativa das próprias pessoas. É só nesse sentido que pode haver o conceito de pecado ou, em termos seculares, de erro ou crime, o indivíduo só pode ser punido por algo se ele agiu em liberdade, “porque quis”.

Quando o Senhor envia os seus discípulos, Ele não quer uma conversão imposta, mas uma aceitação livre das pessoas. É, portanto, o anúncio a peça chave da evangelização. A demonstração por meios de palavras e pelo próprio testemunho de vida deve ser a peça chave para a proposta de crescimento pessoal e social.

Nesse sentido, não seria Deus que condenaria os homens pelos seus erros. O “calor” físico e a “dor” concreta dos infernos, da distância completa da Perfeição seria conseqüência lógica de nossa decisão livre da negação do Divino. Por isso é que Jesus ordena a seus discípulos: “sacudi o pó de debaixo de vossos pés em testemunho contra eles” (Mc 6, 11), para os que não aceitam o anúncio mesmo tendo um testemunho concreto de vida.

Para que nosso modo de agir seja perfeito, e possamos nos aproximar de forma plena de Deus, Ele mesmo nos dá um exemplo a seguir: Cristo, a Divindade Encarnada. O apóstolo Paulo bem ilustra esse Dom-Testemunho quando afirma que Deus nos dá “a conhecer o mistério de sua vontade” (Ef 1, 9) em Jesus Cristo. É somente o Senhor que deve encabeçar (cf. Ef 1, 10), isto é, ser princípio de todas as nossas ações morais, pois Ele nos deu o testemunho perfeito de ação.

Que saibamos anunciar primeiramente à “casa de Israel”, isto é, àqueles que estão próximos de nós, o modo de vida ensinado por Cristo através de nosso próprio testemunho de ser e agir. Possamos levá-Lo de forma simples (cf. Mc 6, 8-9), vazios de nossos preconceitos ou categorias que somente reduziriam a proposta de Deus.

Não esperemos, entretanto, ser aceitos ou compreendidos, estamos sempre a nos relacionar com pessoas que tem a liberdade de aceitar ou não a proposta que Cristo fala através de nós. Aprendamos a esperar no Senhor, Ele que sabe agir de formas naturais e sobrenaturais para atrair todos para Si.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 164, 11/07/2009]

Sofrimento humano: um sim à vida



Somos seres que, ao mesmo tempo que criamos, somos constituídos pela nossa própria cultura. É evidente que o desenvolvimento técnico e científico contribui muito na vida de muitos, mas por outro lado cria uma acomodação e uma aversão às dificuldades.

Assim como os animais, o homem sempre é levado a fugir da dor e buscar o seu bem estar sempre à procura de segurança para sua vida. A questão problema se inicia quando essa busca se torna absoluta e incondicional. O mais alarmante e perigoso é quando essa corrida pelo bem individua significa o esquecimento e a negação do outro.

Muitas vezes, só lutamos e defendemos certos ideais ou conceitos como solidariedade ou “direitos comuns” quando “eu” serei beneficiado. Não pensamos no bem comum, mesmo que ele signifique o meu sacrifício. É exatamente aqui que o conflito inicia-se; O homem, nessa cultura de rapidez, desenvolvimento técnico e industrial e eficiência nas produções, esquece de uma dimensão central que foi realizada por Jesus e seu resultado foi prometido a todos que o seguissem: O Espírito da Cruz como caminho para a Ressurreição.

Buscamos, por exemplo, a Igreja, o conselho de um padre ou amigo sempre para fugir de uma dor. Nossa relação com o sofrimento é sempre de aversão a ele e, por consequência, de fuga. É esquecido o fato de que os problemas são realidades presentes em nossas vidas e a fuga deles é uma negação de nosso próprio ser.

Todavia, não se está a propor uma filosofia conformista no aceitar sem nenhuma reação o sofrimento. Entretanto, se a dor é fato constante na vida do homem, abraça-lo significa aproximar-se da própria vida. Entra aqui a uma reelaboração do próprio sofrimento humano, transformando-o em possibilidade de crescimento e superação. Ou seja, no enfrentamento e superação das aflições e fores (saindo marcados ou não) obtemos sempre uma lição para a nossa história.

Assim como os conterrâneos de Jesus, procuramos uma salvação sempre fora de nós, a negar aquilo que faz parte de nossa realidade (cf. Mc 6, 3) como a dor os outros problemas. Somos, nas palavras do profeta Ezequiel: “insolentes e de coração endurecido (2, 3) quando não nos deixamos moldar por uma realidade que é dinâmica, que possui valores, mas também conflitos. Esses devem ser superados, e não esquecidos.

São Paulo parece ter compreendido bem e aceitado o Espírito da Cruz proposto pelo Senhor quando afirma: “me comprazo, nas fraquezas, nos opróbrios, nas necessidades e nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo” (2 Cor 12, 10) que é esclarecido quando diz: “pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder” (2 Cor 12, 9).

É somente assumindo o sofrimento como possibilidade de afirmação de nossa vida e aproximação do Cristo, morto e ressuscitado, que poderemos fugir da “rebeldia” dos filhos de Deus (cf. Ez 2, 3) e tornar presente sua promessa de perfeição em nossa existência humana.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 163, 04/07/2009]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Santidade: um elo para Deus


Estamos inseridos em uma estrutura social que considera o homem como meio para qualquer espécie de benefícios. Ele é tornado objeto para todas as ações, seu valor é definido pelo que é capaz de produzir a partir de suas competências e habilidades. Seus valores históricos, familiares e sociais são poucos – ou nada – considerados.


O homem, nessa relação, é transformado em uma máquina de produção de certos bens, que a sociedade estabelece como “necessários” para a vida. Por outro lado, ele vai sendo posto de lado nas próprias relações sociais. O bem comum, que deveria ter o valor da vida humana como centro de toda a ação política e social, é trocado por um progresso que instrumentaliza o próprio homem e o qualifica por suas capacidades, físicas e cognitivas.


Nosso Senhor escolhe Pedro, com uma teologia de contradição ao pensamento estabelecido de sua época, e que pode também ser atualizado para a nossa, para que ele seja pedra viva e primeira de Sua Igreja. Ele que era um simples pescador, que negou Jesus por três vezes e que não estava no Seu momento ultimo, a Cruz. Pedro, mesmo incapaz – e por que não dizer, indigno – foi escolhido para dar início a uma experiência de comunidade eclesial.


Jesus poderia ter escolhido alguém que tivesse mais habilidade para “coordenar” sua Igreja, pastorear seu rebanho. Escolheu, entretanto, um que não tinha nem um nível elevado de conhecimento, nem experiência, mostrando-nos assim que a ação da Igreja, mesmo sendo humana, segue uma proposta divina, providencial que tenderá sempre para a perfeição.


A confirmação de que Jesus era “o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16, 16) fez com que Pedro se tornasse aquele que estaria à frente do rebanho do Senhor. Foi somente a experiência de reconhecimento do Cristo como Palavra Viva do Pai e modelo de perfeição humana que capacitou verdadeiramente a Pedro para a missão de ser ponte entre os demais homens e Deus, como confirma o próprio Senhor: “[...] não foi a carne ou o sangue que te revelaram isso, mas sim meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17).


Mesmo não alcançando de forma plena uma perfeição e uma completa imitação do Cristo, também somos capazes de nos tornar elos de ligação entre nossos irmãos e Deus. Podemos santificar a nós e aos outros pela compreensão da pessoa de Jesus Cristo como modelo perfeito de vida e santidade.


A figura do sacerdote entra, nesse sentido, como aquele que tem a autoridade de nos conectar (religião – religare=religar) à Deus, através dos sacramentos, da Palavra e, principalmente, de seu testemunho de vida, sendo presença viva e atualizada do Cristo em nossas comunidades. As suas imperfeições sinalizam que o Deus Perfeição age de forma histórica, humana, que atua na nossa cotidianidade e nos faz olhar para frente, na esperança de superação nas dificuldades da vida.


Que possamos buscar, a exemplo também dos Santos, uma perfeição nessa realidade em que estamos inseridos. Eles, que não são exemplos acabados e absolutos, nos ensinam que pela superação de nossos pecados ou pela luta, mesmo que por toda a vida, contra esses podemos conquistar a nossa santidade, sendo capazes também de refleti-la para os outros, santificando-os. Sejamos, portanto, novos intermediadores eficazes de um Deus que é a Plenitude da Santidade para sermos luzes a todos os nossos irmãos.

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[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 162, 27/06/2009]

Fidelidade a Cristo


No último dia 19, sexta-feira, o Papa Bento XVI abriu o Ano Sacerdotal, que será comemorado até o dia 19 de junho de 2009 e seu início coincidirá com os 150 anos da morte de São João Maria Vianney, o santo Cura d’Ars. O Ano terá como tema: “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote” e como finalidade: “Levar a perceber cada vez mais o papel e a missão do padre na Igreja e na sociedade contemporânea”.


O padre, de modo ministerial e sacramental, é aproximado ao Cristo, configura-se a Ele e, a partir daí tem o dever de atualizá-lo em toda a sua vida, em todas as suas ações. O sacerdote é aquele que deve aproximar-se da pessoa de Jesus de forma mais excelente e concreta. É nesse sentido que se apresenta a dimensão e exigência da fidelidade do padre, em conformação com a fidelidade do Cristo.


Ele é convidado a tornar presente e atual o próprio Cristo e todas as suas características: na simplicidade de espírito e vida, no anúncio de um novo reino possível, no sacrifício cotidiano de entrega para a construção desse novo mundo, da morte de uma vida para si e doação no serviço ao outro, tendo, como todos que fizerem essa opção, o prêmio de tudo multiplicado por cem (cf. Mt 19, 29), do que ele tenha deixado, obtendo a Vida Eterna. Se o presbítero fugir de uma sequer dessas dimensões ele está se afastando do próprio Cristo não sendo fiel a Ele.


A conformar-se ao Senhor, Palavra de Deus encarnada na humanidade, o sacerdote também é convocado a encarnar-se. Sendo aquele que faz o elo de ligação entre o homem e Deus, compreendendo-se – e isso é importante! – dentro dessa relação, ele, portanto, não é neutro socialmente. Como afirma o Apóstolo: “[...] todo Sumo Sacerdote, tirado do meio dos homens é constituído em favor dos homens em suas relações com Deus [...]. É capaz de ter compreensão pelos que ignoram e erram, porque ele mesmo está cercado de fraqueza” (Heb 5, 1s).


Deste modo, é que a formação e a compreensão do sacerdote contemporâneo deve ser vista com um novo olhar. A sociedade está cada vez mais globalizada, os avanços científicos, tecnológicos e do conhecimento estão rapidamente se especializando e sendo difundidos pelo mundo. O sacerdote não deve ser mais um a receber uma cultura de massa, que cega as pessoas diante dos interesses políticos, econômicos e sociais.


O padre, como presença viva do Cristo, sabedoria divina e perfeita, deve conhecer, antes de tudo, essa realidade, mesmo de forma limitada, em que está vivendo e saber apontar saídas ou outros caminhos para uma sociedade sem rumos como a nossa, com um “Deus”, que nas palavras de Nietzsche, “está morto”.


Todavia não são somente os sacerdotes que estão configurados ao Cristo. Todos os que são batizados, tornam-se participantes do sacerdócio comum dos fiéis e, por isso, são chamados a terem as mesmas atitudes de Jesus: simplicidade, anúncio e morte para conseguirem a Vida Plena. Mesmo diante de conflitos em nossas vidas devemos sempre ser fiéis ao Cristo, modelo e fim de todas as nossas ações, pois ele é quem põe ordem ao caos, isto é, a desordem de nossa vida (cf. Mc 4, 39). É somente Ele quem tem o poder de dizer às nossas limitações e conflitos: “Até aqui chegarás e não passarás: aqui se quebrará a soberba de tuas vagas [ondas]” (Jó 38, 11).

Como afirma São Paulo: “[...] um só morreu por todos e que, por conseguinte, todos morreram” (2 Cor 5, 14) e é por essa morte que nos aproximamos dele, como continua o Apóstolo: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Cor 5, 17). Que não tenhamos medo (cf. Mc 4, 40) de nos aproximar do Homem-Deus, pois só Ele, como realidade perfeita, não falha.

[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 161, 20/06/2009]

Somos sementes



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A sociedade moderna, marcada pelo ideal de eficiência e rapidez na produção de bens materiais ou nas relações entre os seus indivíduos, cria no homem uma marca que lhe é prejudicial: o imediatismo. Nessa velocidade e eficácia, principalmente nas relações sociais, parece ser esquecido que as pessoas que delas participam são humanas, e, como tal, possuem uma formação gradativa, contínua e, principalmente, paulatina, isto é, sua transformação não será dada de um dia para o outro.


O filósofo alemão Karl Marx (1818 – 1883), com a colaboração de seu colega Friedrich Engels (1820 – 1895), escreveu em 1847 o Manifesto do partido comunista. Nela, Marx faz uma crítica ao sistema capitalista e propõe o socialismo como modelo de governo. Para ele, no socialismo não haveria concentração de bens, todos viveriam de modo igualitário, seria extinta a concentração de riquezas, logo, não existiria necessidades materiais entre os homens.


Ao ouvir isso, parece que estamos diante da proposta de Cristo realizada pelos primeiros cristãos. O erro do marxismo não está em propor uma sociedade justa e fraterna, mas no modo como chegar a ela. Marx afirmava que para haver uma transformação social era preciso uma revolução. O povo tomaria o poder usando, se preciso fosse, a violência. Aqui é afastada a proposta de Cristo.


Muitas vezes, somos também tomados por esse tipo de idéia quando queremos ser agentes revolucionários de uma transformação social imediata. Queremos abraçar e mudar o mundo com nossas próprias mãos e esquecemos que somos somente parte de um organismo maior do que possamos imaginar.


Ao mostrar a construção do Reino de Deus associando-o à imagem da semente de mostarda – uma das menores – que é plantada e aos poucos vai crescendo, somos chamados à atenção de que a edificação daquele não será de forma imediata nem unicamente dependente de nós. É somente sob o Espírito de Deus, que possui uma pedagogia e o um tempo próprio, que o Reino se tornará pleno e não com nossas falhas e limitadas ações. O homem é sim, agente das ações sociais, mas é Deus quem transforma e direciona todas essas para o seu Plano Divino de construção de um mundo perfeito “sem que ele [o homem] saiba como” (Mc 4, 27), sempre na ocasião oportuna.


É nesse sentido que não cabe à nós “conhecer os tempos ou os momentos” (At. 1, 7) dos planos de Deus, basta-nos seguir as Suas propostas. Devemos caminhar, nas palavras de Paulo, “pela fé e não pela visão” (1 Cor. 5, 7). Mesmo sem compreender muitas coisas, mas caminhando sempre sob os mandamentos divinos, temos a certeza de que ele guia nossos passos e nossas ações para a edificação da cidade perfeita. Nossos sentidos, pelo contrário, são falhos e limitados para se dizer fonte de verdade ou de boa ação.


Por outro lado, mesmo vivendo neste mundo e sabendo que “estamos fora de nossa mansão, longe do Senhor” (1 Cor. 5, 6), não devemos ficar de braços cruzados, contemplando o céu, esperando a vinda de Jesus, pois, na plenitude dos tempos seremos julgados pelo que fizemos de bem ou de mal (Cf. 1Cor. 5, 10) nesta terra, tendo Cristo como Supremo Juiz, ele que também é modelo de nossas ações.

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[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 160, 13/06/2009]

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Deus é Pai

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Dentro de uma cultura pós-moderna, onde conceitos como subjetividade, individualidade e liberdade, em todos os seus aspectos, são valores cada vez mais confirmados pela sociedade, estão sendo perdidos outros essenciais que dão sentido e norte para as nossas vidas. Dentro desse ambiente, valores como a tradição, disciplina, ordem e regras são postos de lado em vista de um autoconhecimento, autovaloração e outras séries de práticas que tem em vista colocar o homem como centro de si mesmo. Ele torna-se senhor de sua própria vida.


O filósofo alemão chamado Friedrich Nietzsche (1844-1900), disse a espantosa frase de que “Deus morreu”. Todavia, não foi Nietzsche quem matou Deus, mas nós. O homem mata Deus toda vez que se acha conhecedor do bem e do mal, deixando-o de lado, negando-o. Se eu sou o senhor de minha vida, tenho todas as capacidades emocionais e cognitivas para administrá-la e tenho as habilidades de julgar tudo, não precisarei de ninguém que me ponha normas ou caminho para seguir. Eu sou Deus.


Ninguém melhor do que a própria história para nos lembrar dos grandes erros sociais que se deram em nome da razão e do desenvolvimento científico. Não podemos esquecer também das barbáries que aconteceram – e ainda acontecem – em nome de uma fé e de um deus, que podem ser tudo, menos Amor, Caridade, Justiça e Sabedoria. Tudo isso nos mostra que precisamos de referências para a nossa vida, de modelos e regras que nos apontem caminhos para as nossas ações.


Aos nos dar o Espírito Santo e Santificador, Deus nos chama para estarmos próximos dele. Como acrescenta São Paulo na carta aos romanos: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (8, 14). Ter Deus como Pai é saber que temos uma autoridade para obedecer, não como escravos, mas filhos e nas palavras do próprio Cristo, “amigos” (Jo 15, 15). É saber que suas palavras, não são regras opressoras, mas “espírito e vida” (Jo 6, 63). É o próprio Javé quem pede que guardemos suas leis e mandamentos “para que sejas feliz, tu e teus filhos depois de ti, e vivas longos anos sobre a terra” (Dt 4, 40).


Seguir, portanto, os mandamentos e caminhos de Deus é a garantia da vida feliz, que ele mesmo nos prometeu enviando, para isso, seu Espírito. É esse mesmo Espírito Santo que nos impele a ir anunciar (missão) o exemplo da Pessoa de Cristo, chamando todos à esse modelo de vida (discipulado), seguindo-o. É o Senhor mesmo quem nos convoca a unir todas as pessoas em volta dele (batismo) “ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28, 20). Jesus sim, é o mandamento, o modelo, o caminho vivo proposto pelo nosso Pai Supremo.


Vejamos o caminho dos santos. Eles que, sem facilidades e muito sacrifício, buscaram seguir os mandamentos do Senhor em sua diversidade de carismas e habilidades, tendo sempre o Cristo como maior modelo e via para se chegar ao Pai. Saibamos resgatar valores que levaram muitos à uma vida feliz, simples, mas santa. Consideremos a disciplina, normas e limites que existem em nossas comunidades, não como aquilo que barram a nossa liberdade, mas como propostas que nos dão luzes para o nosso caminhar, tão cheio de trevas pela nossa prepotência em querer saber e julgar tudo. Possamos com autoridade e coerência dizer: “Abbá, Pai!” (Rm 8, 17) e seguir, sob suas propostas e no seu Espírito, em direção ao Deus que é Suprema Perfeição.


[Artigo Publicado no Jornal "A Folha", da Diocese de Caicó, ANO XXI, Nº 159, 06/06/2009]