quarta-feira, 2 de março de 2011

Viver a vida

Somos seres de domínio. Queremos ter a certeza do que somos e do que temos. Ficamos inseguros diante de um futuro incerto. Pessoas obscuras também nos causam temor e aversão. Achamos suspeita toda gratuidade que venha até nós. Queremos ter sempre algo nas mãos para pagar ou dar em troca.

Esse tipo de postura cria em nós um materialismo socialmente prejudicial. O homem passa a quantificar o mundo e a vida. Todas as coisas, aos seus olhos, passa a ter um preço. Porém, mesmo sem perceber, o preço maior que ele aplica nos fatos, objetos ou pessoas é a degradação da própria vida, seja a sua, na relação com os outros ou em sua interação irresponsável com os bens naturais.

Jesus, há dois mil anos atrás, nos ensinou não uma regra religiosa, mas uma proteção para a nossa qualidade de vida: “Não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir” (Mt 6,25). Toda a nossa insegurança parte do temor de sair prejudicado em nossas relações vitais.

Jesus Cristo pede que não tenhamos medo. Ele que nos criou, deu a nós as condições necessárias para a sobrevivência, também nos dá a inteligência para superarmos os obstáculos que venhamos a enfrentar. Porém, ele nos adverte: “não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações” (Mt 6, 34).

Preocupar-se é se ater com algo que está no futuro, portanto, que ainda não chegou. Se temos tal postura corremos dois riscos: ou esquecemos de viver o presente, perdendo as oportunidades de crescimento que ele nos oferece, ou somamos – o que é pior – as preocupações de hoje com as que virão. Continua o Senhor: “Basta a cada dia a própria dificuldade” (Mt 6, 34).

Se eu tenho quinhentos tijolos para transferir em uma distância de cem metros e sei que não vai dar para transportar tudo em um carrinho de mão, então logicamente devo transportá-lo em partes. E se nem o carrinho de mão eu tenho e sou obrigado a fazer tal atividade, devo, conseqüentemente, levar dois tijolos de cada vez. Há um provérbio chinês que afirma que “uma jornada de duzentos quilômetros começa com um simples passo”.

É preciso aprender a viver a singularidade de nossos dias. É preciso experimentar a individualidade de cada homem e sentir-se feliz com isso. É preciso compreender que as maiores riquezas e fontes de alegria nos são dadas gratuitamente. É preciso enfrentar a grande construção de nossa existência: tijolo por tijolo.

Aprendamos com Maria a viver a gratuidade da existência. O risco e a responsabilidade que ela assumiu ao dizer sim à proposta do anjo não fizeram com que ela exigisse nada em troca. Ela soube dizer um simples e destemido: “faça-se”.

Que nós saibamos a também dizer um sim à nossa vida, aos prazeres e aos obstáculos que ela nos apresenta. Não podemos sonhar com um grande jardim em nosso quintal se não começamos a pôs as mãos na terra e plantamos pequenas sementes. Se quisermos mesmo chegar no céu e tocar nas nuvens, comecemos juntando todos os entulhos, pedras e areia que estão ao nosso redor para que, fazendo uma montanha, possamos subir em busca de nosso sonho: a felicidade do alto.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amar a vida


“amai os vossos inimigos” (Mt 5, 44).

Em uma lógica apenas humana essa postura parece confusa de se entender e abraçar. Como podemos amar alguém que nos calunia? Quem faz de tudo para prejudicar a nós e aos que estão ao nosso redor? Como não revidar, direta ou indiretamente, a uma ação que nos irrita?

Tudo isso vai depender do que entendemos por amor. Se igualamos tal conceito ao de uma forte afeição, a uma ligação calorosa ou até a um sentimento afetivo erótico pelo outro, isso vai ser difícil e até impossível de se realizar.

No livro O monge e o executivo, de James Hunter, o autor afirma por uma de suas personagens uma definição quase que categórica sobre esse conceito: “o amor é o que o amor faz”. O conceito de amor que Cristo apresenta é o ágape, o amor doação, que não espera nada em troca, que não sofre pelos erros alheios nem guarda rancor pelas decepções sofridas.

Estamos todos no mesmo barco. Se afirmamos que alguém é corrupto, ladrão, falso ou incompetente em relação a nós e aos que estão ao nosso redor e sentenciamos que ele não tem mais jeito, o julgamos e o condenamos. Entretanto, esquecemos que nós também podemos cair nos mesmos erros, em semelhantes ou até piores em relação aos que julgamos.

Jesus Cristo nos apresenta uma postura pretensiosa: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). Ele dá cumprimento à exigência feita por Deus no Antigo Testamento: “Sedes santos, porque eu, vosso Deus, sou santo” (Lv 19, 2).

Ser perfeito não é assumir uma realidade que está além de nosso mundo, mas é construir a plenitude de nossa existência. Uma árvore pode ser plena mesmo quando possui falhas em seu tronco, galhos incertos ou frutos de diversos tamanhos. Ela é perfeita por que conseguiu conquistar a meta de sua existência: nascer, crescer e dar frutos.

Do mesmo modo, ser perfeito é buscar tornar pleno aquilo que recebemos da vida, ou seja, a humanidade. E se sabemos que estamos envolvidos por uma humanidade com falhas e possibilidades também o outro, como semelhante, tem as mesmas chances de acertar e errar.

O perdão é a dinâmica que nos ajuda a compreender-se como seres humanos. Quando Deus ordena: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18), ele está a nos ensinar que somos a mesma carne envolvida em histórias diversas.

Quando cometemos certos erros temos uma facilidade imensa para justificá-los. Se é alguém que amamos, levantamos logo a bandeira de que “errar é humano”. Porém, se é alguém por quem temos antipatia... chibata e castigos...

Ser santo como Deus é santo é cumprir o seu preceito de amor pleno e gratuito ao homem. Ressentir-se, ter ódio ou guardar as injustiças que cometeram contra nós é um mal que praticamos a nós mesmos. É um desgaste desnecessário que afeta a nossa própria qualidade de vida. Definir, julgar e condenar é assumir uma responsabilidade que não é nossa.

A Mãe do Filho de Deus é o exemplo pleno daquela mulher que soube entrar na dinâmica do perdão que se torna amor pelos que praticam erros. Maria que podia muito bem ter se distanciado daqueles que abandonaram seu Filho no momento da cruz soube estar com os discípulos no cenáculo e receber, com eles, o Espírito Santo de Deus.

Que nós também possamos entrar na dinâmica do amor ao próximo a partir da compreensão de que somos seres humanos, envolvidos por humanidade. Ver o homem como uma história de vida pautada por dores e alegrias, crescimentos e fracassos, feridas e vitórias é o caminho para se construir uma santidade iniciada pelo que temos de mais real: a vida.

Plenitude da lei, perfeição da Vida

A mídia está nos apresentando nesses dias a luta do povo pela democracia no Egito. Eles, depois de mais de trinta anos de poder de um único homem, exige liberdade política. Eles querem participar das decisões de seu país.

Mesmo sabendo que essa luta está cercada de outros interesses políticos e econômicos, uma coisa deve saltar aos nossos olhos: o homem luta por sua liberdade. Na ausência dessa, ele é capaz de ir às últimas conseqüências para construí-la.

Nessa construção, o homem é capaz de questionar, negar e até lutar contra o conjunto de normas e valores que os cercam. Em seu íntimo, ele sente quando sua livre decisão é atingida e anulada pela vontade de outros.

O povo egípcio busca um conjunto de novas leis que dêem liberdade para o seu povo. Eles querem ser protagonistas de sua história. Não aceitam que regras ditadas por um pequeno grupo ditem o que deve e o que não deve ser feito.

Aquele povo não está negando a lei e o seus valores simbólico, moral ou político. Eles apenas estão a questionar o desvio que ela cria quando não toma o valor da vida humana como centro de seus objetivos. Eles buscam uma lei que tenha a integridade do homem como centro.

Jesus Cristo, como Palavra de Deus, é a plenitude da Lei. Ele apresenta, em si, a vontade do Deus Pai. Jesus não impõe um novo preceito ou um novo modo de ser, mas apresenta em si mesmo a plenitude da vida, apresentada pelos santos e profetas durante a história da salvação. O que Deus pensou para o homem ele mostrou em Cristo.

Nesse sentido, Jesus não mais aponta ensina ou aplica a lei, mas é a própria lei. Como verdadeiro homem, ele demonstra que toda regra deve ter a pessoa e o valor de sua vida como centro. Obedecer a essa lei da vida não significa perder a nossa liberdade, mas caminhar para a plenitude de nossa existência.

Olhar para Jesus significa olhar para aquele que é o exemplo vivo da lei que gera a própria vida, por que ele mesmo é a vida. Ser livre, nesse sentido, significa caminhar em busca daquele para o qual fomos criados, ou seja, para uma vida em plenitude.

Maria é o exemplo mais claro da pessoa que soube viver da liberdade querida por Deus. Liberdade essa que se submete ao caminho apresentado pelo Senhor. Tal método não é humano, já que a vontade e a lógica humana crucificaram a Plenitude da Vida. O caminho verdadeiro deve ser o da vida e vida plena.

Que nós saibamos, como Maria, olhar para a vontade de Deus e aceitá-la em nossa existência como única meta nesse caminho para vida e liberdade. Saibamos olhar para a Lei, que tem Cristo como plenitude e a humanidade como seu principal objetivo, como algo que nos põe a caminho de uma liberdade prometida pelo Deus Pai, conquistada pelo Filho Ressuscitado e fortalecida pelo Espírito da Vida.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Fazer a diferença

Estamos, mais do que nunca, na cultura de massa. Vemos o mais famoso programa de TV, votamos no candidato da mídia, queremos vestir a roupa da moda ou adoramos o mais novo cantor e sua mais recente música... Estamos levando aquela velha “vida de gado: povo marcado, povo feliz”.

O problema desse tipo de postura é que vamos, aos poucos, perdendo nossa individualidade. Esquecemos que dentro de cada pessoa há uma singularidade e uma riqueza que ninguém pode encobrir. Nesse ritmo de ser e viver, não sabemos até quando podemos nos considerar como seres distintos, não no número do RG ou cartão de crédito, mas diferentes na história pessoal, nas habilidades e visões de mundo.

Ao levar uma vida de gado, marcado segundo os mesmos costumes e influenciado pelos mesmos interesses, perdemos a luz divina que recebemos no sopro da vida. Um sopro que nos faz diferentes das pedras, animais e plantas, por que nos torna únicos no mundo. Uma diversidade marcada pelo nosso DNA e comprovada pela história.

Cristo, em seu sermão da montanha, ainda nos aponta um caminho: é preciso ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5, 13.14). É preciso fazer a diferença em uma cultura marcada pelos iguais, pela moda que dita o bonito e o feio, pelo conhecimento que diz o certo e o errado, pelo homem que julga o bom e o mal. Definições essas que não tomadas como verdades absolutas e inquestionáveis.

Para ser sal, é preciso aprender a marcar o espaço em que vivemos com a nossa presença, deixar para os que estão ao nosso redor o que temos de bom, o nosso respeito, o nosso serviço e o nosso desejo de ser irmão.

Fazemos a diferença quando demonstramos um modo de ser que é único, uma história de vida marcada por habilidades e falhas, vitórias e fracassos, alegrias e tristezas, valores e danos... Ser luz é demonstrar aos outros que podemos iluminar o lugar onde estamos por que temos algo a acrescentar àquele espaço.

Entretanto, não precisamos ser grandes astros ou o próprio Big-Bang [a grande luz] primeiro por que a velinha que está ao nosso lado pode desaparecer e, segundo, por que tais fenômenos luminosos tiveram e têm seus dias contados. Precisamos da constância da chama que, mesmo fraca, quando alimentada cotidianamente, pode durar uma vida longa.

O modo como acender essa fogueira nos é ensinado pelo profeta Isaias: “repartir a comida com quem tem fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente” (Is 58, 7). Não são discursos, frases ou palavras que tornam a nossa luz um meio de testemunhar as razões de nossa fé. Porém, são nas pequenas obras concretas da vida que manifestamos a presença do Espírito de Deus agindo em nós.

Deste modo, devemos saber que, mesmo com tudo isso, não brilhamos por nós mesmos. Nossa luz é fagulha de um brilho que não pode ser descrito, mas que nos induz a fazer a diferença no espaço em que estamos. Assim, nos confirma o Senhor: “que a luz de vocês brilhe diante dos homens, para que eles vejam as boas obras que vocês fazem e louvem o Pai de vocês que está nos céus” (Mt 5, 16).

Saibamos olhar para Maria e ver nela o exemplo daquela que soube gerar e portar a verdadeira luz do mundo: Jesus Cristo. Ela nos ensina que o serviço, a entrega e o sacrifício gratuito da própria vida são meios necessários para que a luz seja acesa e conservada no meio das pessoas. É essa a luz que nos salva e nos torna homens que sabem fazer a diferença, que aprendem a ser, verdadeiramente, sal da terra e luz do mundo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Família, lugar de transmissão da fé

[Reflexão realizada na festa de São Sebastião, capela do Serrote da Cruz em Caicó-RN, em 13 de janeiro de 2011. Tema da noite: Família, lugar de transmissão da fé; Evangelho: Lc 2, 41-52]

Desse Evangelho de Lucas, um versículo salta aos nossos olhos: “Jesus desceu então com os seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente”. (Lc 2, 51). Mesmo tento acabado o tempo do Natal do Senhor, o fato do Deus que se encarna na natureza humana e permanece seguindo as suas leis ainda continua a nos ensinar.

Sim, Jesus, o menino Deus, se submetia à organização de uma família humana. Deus se curva diante do mistério da união entre homem e mulher. Uma união que torna o amor material, tão concreto que faz gerar a vida, um novo homem: os filhos.

Se o próprio Deus obedece à organização familiar, se curva diante dessa estrutura, é porque ele reconhece o seu valor. Ele sabe que é no colo do pai e da mãe (paternidade ou maternidade) que os filhos podem realmente crescer na fé e na maturidade humana e comunitária. É nesse sentido, Evangelista Lucas continua a sua citação: “E Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. (Lc 2, 52).
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Toda a santidade de Jesus foi construída dentro de uma família humana. A educação simples e humilde que ele recebia dos seus pais foi de extrema importância para que ele crescesse, evoluísse em todos os aspectos humanos: espiritual, humano e comunitário. A divindade de Jesus foi confirmada, não porque ele buscou “ser Deus”, “ser o maior”, mas por que ele soube aceitar a condição que estava sendo destinada a ele: ser filho, ser homem no meio dos outros.

Tudo isso nos ajuda a compreender que é na família que podemos encontrar o primeiro espaço privilegiando para a educação na fé dos filhos e dos futuros cidadãos. É na família, “lugar e escola de comunhão” (DAp 302), que os grandes homens e os futuros santos de nossa comunidade encontram o espaço privilegiado para o crescimento.

E quais são as boas escolas? Evidentemente são as que possuem bons professores. Os pais, nesse sentido, esses primeiros mestres nessa “escola de fé”. São eles os primeiros responsáveis por uma educação sadia de filhos, para que eles se aproximem, também de forma sadia, de Deus e de seus irmãos.

Porém, com diz o ditado: “Ninguém dá aquilo que não tem”. Nenhum professor pode chegar na sala de aula sem um conteúdo para ser discutido com os seus alunos. Do mesmo modo, os pais não devem entrar nessa escola sem nada a oferecer a os seus filhos.

Porém, o maior dos bens que eles têm a oferecer para os filhos não é a alimentação, a moradia, muito menos outros bens materiais, mas a educação. Essa é a capacidade que o homem tem de superar a si mesmo, ultrapassar as suas limitações e ir aos seus irmãos por meio do serviço. Serviço esse que só pode se concretizar por meio daquele que nos ensinou o caminho das maiores fontes da vida: o amor caridade.

Com isso, nos apresenta o Documento de Aparecida (303): “[...] é dever dos pais, especialmente através do seu exemplo de vida, a educação dos filhos para o amor como dom de si mesmos e a ajuda [...] para descobrir sua vocação de serviço, seja na vida leiga como na vida consagrada”. O maior dos modos de ensino ontem, hoje e sempre é o testemunho de vida. Os pais só podem exigir dos filhos aquilo que eles estão fazendo, nada mais.

É no ambiente doméstico que se dá a maior das aulas, a maior das catequeses e a maior das lições: aquela que ensina a viver, a que ensina a homens e mulheres o caminho para a santidade. É no lar podemos encontrar a grande escola da vida, a verdadeira “escola de fé”.

Entretanto, devemos aprender que essa educação não pode surgir sem o espírito de entrega e sacrifício na relação entre pais e filhos. A obediência que os filhos devem aos pais, mesmo que dolorosa os ajuda a se manterem firmes e obedientes também perante um Deus Pai que também se preocupa com os seus filhos. Do outro lado, o amor-doação que os pais devem aos filhos confirma o sacramento que realizaram. Nesse amor, eles tornam concreto mais uma vez o Deus Amor, Sacrifício e Doação.

Nessa compreensão, temos a nosso favor o exemplo de São Sebastião. O testemunho desse mártir, que soube doar sua vida em razão da fé em Jesus Cristo, é para nós uma grande motivação e ensinamento de que o sofrimento também é via de crescimento espiritual e humano. Peçamos a interseção desse grande Santo de nossa Igreja para que o seu exemplo fortaleça as nossas famílias no amor doação, no Amor Caridade.

Que no dia de hoje, possamos olhar para a Eucaristia como esse mesmo espírito que fez São Sebastião a entregar a sua vida em defesa de sua opção. Que a imagem do Cristo, Pão da vida, nos ensine também a ser alimento, fonte de vida e crescimento para os nossos irmãos. Que nossas famílias cresçam cada vez mais nesse mesmo espírito de doação, na educação de seus filhos na fé em um Deus que também é entrega, é sacrifício em favor dos seus filhos adotivos. Adoção essa conquistada pelo mistério da entrega e do Deus Pai que se fez Filho para gerar o sacramento do Amor.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ele nasce

Quais são as notícias que vemos e ouvimos no período de fim de ano? “Preços caem”, “Vendas aumentam”, “Os brasileiros compram mais”, “É tempo de dar e receber presentes”...
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Quem vai a uma festa de aniversário na casa de alguém e não cumprimenta aquele que é festejado? Essa postura, socialmente inesquecível, é muitas vezes deixada de lado quando estamos falando do menino Deus. Sabemos que estamos festejando a grande alegria de seu nascimento, mas esquecemos de fazer uma pequena aproximação com ele.
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E por que não conseguimos fazer tal coisa? Simplesmente pelo fato de que não estamos conseguindo encontrá-lo. Vemos os festejos, as músicas, os presentes e os ornamentos da festa, mas não estamos contemplando o próprio aniversariante.
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Todas essas coisas indicam sua realeza, a grandeza daquele que é a Palavra de Deus feito homem. Porém, é esquecido que ele mesmo não quis essas riquezas. O próprio enviado de Deus nos indica o sinal de sua localidade: “Encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2, 12).
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É bonito ver o menino Jesus em grandes Igrejas, magníficos presépios, rodeado de muitas luzes, é belo e fácil. Porém, é difícil compreender que ele nasceu em um lugar simples, muito pobre, deitado em um lugar indigno de seu poderio e nobreza. É mais complicado ainda saber que ele ainda continua nascendo em uma realidade como essa, que a salvação brota onde menos esperamos e a expectativa da humanidade está em realidades simples e em pequenos gestos.
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Isaías, no passado, já aclamava: “nasceu para nós um menino” (Is 9, 5). Sim, ele nasce a cada momento em que é gerado na história dos homens. E nos aponta para a possibilidade de salvação a partir de atitudes simples, humildes e puras.
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Nasce para nós um menino, surge uma nova esperança para o homem que anda na escuridão (cf. Is 9, 1). O menino é a esperança de uma vida nova, é possibilidade de renovação da humanidade que é chamada a acompanhar com os olhos e a vida a luz enviada pelo Pai.
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No entanto, essa luz não nos permite olhar muito tempo para o alto, a procurar uma riqueza nas coisas grandes, ela nos faz descer os olhos, a cabeça e quebra o nosso orgulho ensinando-nos a presença de Deus em locais que não queremos imaginá-lo. E não queremos por que já o criamos sob as nossas categorias, definições e conceitos prévios.
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O espírito do Natal do Senhor nos ensina a fazer um novo caminho, a olhar para a imagem do menino que nascem em Belém e a ter uma nova postura: ele nasceu e está lá. Ele nos ensina a descer dos nossos pedestais e assumir a nossa humanidade, nos ensinando a ser grandes por que olhamos para cima, buscando o que está nos céus, não olhando para baixo, julgando quem está, aparentemente, no chão.
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Que o espírito do menino que nasceu em Belém e nasce em nossa história nos ensine a sua proposta de felicidade, buscando, na simplicidade de nossos gestos, a grandeza da salvação. Nesse período, nos é indicado que ele pode nascer nesse ano que se inicia, trazendo-nos a alegria de uma nova vida, a esperança por novas realidades e o esforço de buscar novamente a construção de nossa humanidade.


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Para que isso ocorra, basta que digamos como Maria: “Sim, eu quero”.
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ABENÇOADO NATAL DO SENHOR,
UM ANO REALMENTE NOVO E SANTO!

É preciso renascer

“Uma virgem conceberá e dará à luz um filho”

Diante de um novo ano que se inicia, que promessas estamos fazendo? As mesmas ou outras? Estamos refazendo aquelas velhas propostas ou já as superamos e buscamos outras que nos fazem crescer? Estamos olhando para o novo ano como ano de possibilidades ou mais um que se inicia?
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Todo reinício nos dá a possibilidade de uma nova postura, de desenvolver um novo olhar, de renovar a si mesmo para viver melhor. Não é a repetição de um mesmo conjunto de ações, mas a abertura ao mistério do novo, ao mistério que a novidade traz em si
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A imagem da encarnação do menino Deus que é gerado no seio de uma virgem nos lança para a compreensão de que nem todos os atos podem corresponder às nossas expectativas. O nosso modo de ver e entender o mundo não pode ser permanentemente o mesmo: é preciso mudar.
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Isaías já prenuncia: “Saibam que Javé lhes dará um sinal: A jovem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de Emanuel” (Is 7, 14). Deus é realidade dinâmica e está em constante manifestação. Ele não entra em nossas categorias ou sistematizações, nas nossas imagens de mundo ou tentativas de explicação, mas sempre está nascer onde menos esperamos. Sim, uma virgem conceberá.
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Nesse sentido, não é o homem que gera Deus e o cria à sua imagem e semelhança. Deus gera-se a si mesmo e manifesta aos homens o mistério de sua novidade: todo nascimento é possibilidade de crescimento e, portanto, transformação.
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Mesmo não gerando, o homem é chamado a dar nome a essa nova realidade (cf. Mt 1, 21), e o nome dela é caminho de salvação, Deus está conosco e nos quer juntos de si. Ele quer que o homem se afaste de todos os vícios e de suas conseqüências e busque o bem.
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A figura da criança divina que nasce em nossa humanidade, nos faz ter a esperança em um novo mundo. Deus se faz presente e mostra ao homem que sua humanidade é possível de salvação. Para isso, basta que ele olhe para essa criança com abertura, disposto a acolher a novidade que ela traz consigo.
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Não podemos continuar as nossas antigas práticas de categorização das pessoas e das coisas, ou seja, de pré-definição do que é certo ou errado, bom ou ruim, válido ou inválido, moral ou imoral. É preciso abrir-se à realidade de que todo novo é mistério a ser desvendado, descoberto gradativamente, mas não pré-definido ou pré-conceituado.
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José apresenta para nós a idéia do homem que soube abrir-se a essa novidade trazida por Deus. Como indivíduo de seu tempo, ele poderia justamente condenar Maria por adultério. Mas ele soube ouvir a voz de Deus que demonstrava que aquele fato era a manifestação do seu Espírito que tinha planos de salvação para a humanidade, e tais planos não poderia partir dos homens.
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Maria também soube estar disponível ao mistério da providência divina. Ela só pôde ser via perfeita para a encarnação de Jesus por que “não conhecia homem algum” (Lc 1, 34), por que sabia, em seu íntimo, que nenhum homem poderia fazer tal prodígio.
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Que nós também, a exemplo da família de Nazaré, possamos estar dispostos a renascer para uma nova proposta de salvação que encontra no menino Jesus a sua plenitude. Ao nascer em um local simples e de forma inusitada nos é apresentado um caminho de abertura a toda novidade que vem até nós, que nasce à nossa frente.
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Essa novidade nos ensina a dinamicidade de um Deus que se faz presente e quer que nos abramos ao seu projeto de salvação. Esse se concretiza no mistério do novo que, constantemente, nasce, cresce e ilumina nossa humanidade. Com isso, passamos a olhar, não para o que deixamos de fazer, mas para as nossas esperanças, para o menino que estamos gerando a cada sonho e a cada novo modo de ver o mundo.