quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

É preciso esperar


Quando estamos diante de determinados conflitos políticos, escândalos morais, contradições humanas, somos levados, algumas vezes, a um enfraquecimento de nossa fé. Cansamos-nos de ver tanta banalização da pessoa humana, falta de respeito è integridade do outro, desrespeito à dignidade que é intrínseca a todo indivíduo.
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E no fim de cada ano isso parece se tornar mais latente. Saber que um novo ano está por vir e vamos ter que enfrentar novos conflitos e tristezas individuais ou sociais, algumas até maiores, não deve ser sinal de derrota, mas deve nos colocar numa posição de esperança, que nos impulsiona para frente.
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Sentir-se triste ou indignado diante de tais realidades, entretanto, não quer dizer que somos paradigma de verdade ou seres impassíveis de corrupção. Tudo isso é sinal de que temos em nós uma fagulha do divino que grita a cada instante que algumas posturas são equivocadas e que temos de corrigi-las.
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Somos seres históricos, em constante evolução, fomos transformados do caos para o cosmos, tendemos para a ordem, para a Perfeição. E é diante disso que Isaías nos enche de esperança: “Fortaleçam as mãos cansadas, firmem os joelhos cambaleantes” (Is 35, 3). Ele não propõe uma fórmula para solucionar os nossos problemas. O caminho do homem sempre deve ser o da frente. É caminho de luta.
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Isaías nos ensina a enfrentar os problemas, não retirá-los de nossa frente. E mais do que isso, nos aponta para um futuro redentor, para uma realidade ordenadora do mundo que está sempre disposta recolocar a humanidade em seu caminho rumo à santificação. O profeta nos evoca: “digam aos corações desanimados: ‘Sejam fortes! Não tenham medo! Vejam o Deus de vocês, ele vem para vingar, ele traz um prêmio divino, ele vem para salvar vocês’” (Is 35, 4).
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Essa luta, entretanto, não é instantânea, mas se desenvolve na paciência, na luta cotidiana à exemplo do agricultor (cf. Tg 5, 7) que aguarda a semente que plantou dar frutos. A carta de Tiago nos indica novamente o caminho: “sejam pacientes” (Tg 5, 7). Não podemos dar muitas respostas para o mundo, não podemos sempre apontar o caminho certo ou errado. É preciso esperar.
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Mais cedo ou mais tarde o Filho do homem sempre aparece para julgar todos aqueles que se encontram no erro, para pôr ordem em tudo o que precisa se ajustado. Não podemos nos posicionar em seu lugar, só ele é quem pode definir, organizar, colocar ordem nas coisas. Nesse sentido, nos é dada mais esperança: “[...] o juiz está às portas” (Tg 5, 9).
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O Filho do homem se manifesta exatamente nessa teia de contradições humanas, no pecado do homem, na sua busca por felicidade. Saber que equívocos, escândalos e conflitos são parte da natureza humana é abrir espaço para que o Deus de justiça se manifeste em nossa realidade. É o próprio Jesus que nos diz: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11, 6).
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Nosso Senhor promete o maior bem que o homem pode conquistar: a felicidade, o sentido pleno da vida. Quem sabe ver nas incongruências humanas a possibilidade de crescimento social passa a evitar sofrimentos inúteis e abraçar outros que permitem um contínuo amadurecimento pessoal.
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Saibamos considerar o exemplo de Maria. Ela não se escandalizou perante a proposta de ser mãe do filho de Deus. Diante de uma realidade de negação humana, ela soube gerar no silêncio aquele que foi o salvador da humanidade. Maria não se posicionou como a protagonista do mistério da redenção, mas aprendeu a esperar aquele que foi o paradigma de toda a humanidade.

Ficai atentos

A Diocese de Caicó assumiu em sua última Assembléia de Pastoral a proposta das missões como eixo norteador dos seus trabalhos durante o ano de 2011. Todas as comunidades devem se debruçar sobre esse modo de ser cristão assumindo pela Igreja tanto local como universal.
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Porém, corremos o risco de abraçar essa proposta segundo as nossas compreensões individuais de missionariedade ou evangelização, desconsiderando que a ordem de Jesus aos seus discípulos era um imperativo universal. Todos os que quisessem seguir os seus passos deveriam ser testemunhos e proclamadores de sua mensagem de vida.
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Missão, nesse sentido, não é uma ação de uma parte dos cristãos que têm a coragem de sair de seus espaços individuais ou geográficos e ir à procura do outro que esteja precisando de uma mensagem de vida. Evangelização não é uma técnica ou habilidade que a Igreja encontrou para difundir a Palavra da vida, feita carne em Jesus.
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Quando somos advertidos pelo Senhor quanto à volta do Filho do homem (cf. Mt 24, 44), estamos sendo alarmados de que precisamos viver de forma constante, fiéis à nossa opção inicial. Se optamos por viver segundo a mensagem do Cristo morto e ressuscitado, devemos lembrar que entramos em um modus vivendi, um jeito de ser que nos move a uma postura de vida diferente da que vemos constantemente, à luz de uma Pessoa.
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Podemos estar formando grandes trabalhos pastorais, desenvolvendo inúmeros projetos comunitários, salvando muitas almas de perigos sociais ou morais, mas esquecemos que a qualquer hora podemos, simplesmente, acabar (cf. Mt 24, 39). E o que passa a importar não é o número de pessoas beneficiadas pelas minhas ações, mas como eu as desenvolvi. As posturas que eu estava assumindo ao desempenhar cada atividade, por menor que fosse.
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Nesse caminho, a missão que devemos assumir não é mais um movimento pastoral, mas um modo de agir cristão, fazendo grandes e santas realizações a partir de pequenas obras. É, portanto, um estado permanente. Com isso, não posso esquecer que sou missionário – porque cristão – em cada momento da vida. Não posso estar fazendo missão, apenas quando eu falo sobre ou contribuo para uma atividade específica, mas devo me ver missionário, sê-lo.
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A evangelização, que decorre desse modo de ser – não de estar –, provém do fato de que devemos anunciar uma Pessoa. E não há modo melhor de comprovar a eficácia e o valor de certa mensagem do que quando a mostramos com nossa própria vida. Quando sabemos agir como aquele que anunciamos, qualquer palavra torna-se desnecessária. O testemunho, nesse momento, fala mais alto e penetra mais nos ouvidos e na inteligência dos outros do que qualquer outra palavra ou ação.
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É o Cristo quem nos adverte: “Ficai atentos” (Mt 24, 42). Não podemos esperar uma atividade específica para se dizer missionário ou evangelizador. Tenho que agir de forma que, a qualquer momento, eu esteja apto para dar as razões de minha opção inicial, de minha fé. Isso não começa das grandes obras ou dos eloqüentes discursos, mas a cada circunstância de minha existência, por menor que seja.
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Seria muito bom se soubéssemos o dia em que seremos cobrados pelas nossas obras: planejaríamos bem esse momento, nos prepararíamos para ele. Jesus nos ensina que sua volta ocorre de forma contínua, em realidades que nunca esperamos ou nem percebemos.
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Maria é aquela que soube ser fiel em pequenas coisas. Não vemos grandes realizações em sua história, mas a fidelidade era o elemento que a definia como mãe do Salvador. Ela conseguiu atualizar e materializar a mensagem de Deus, em Jesus, a partir de um pequeno “sim”.
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Foi a jovem de Nazaré quem nos ensinou que o maior grito de evangelização se dá no anúncio da presença do Cristo em nossa humanidade. Ela não falou sobre, mas soube trazer dentro de si essa Palavra, testemunhando-a com sua própria vida, sendo, ao mesmo tempo, considerada a mulher do silêncio.

Um novo reinado

O que é um rei? Segundo o dicionário Aurélio é um “soberano que rege um estado monárquico”. E o que é reger? É o ato de “governar, administrar”.
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Celebrar a Festa de Cristo Rei do Universo é compreender a vitória daquele que soube, como ninguém, abraçar de forma integral a humanidade que permeava o mundo em que vivia. Por que rei? Por ele soube ver no homem a possibilidade de plenitude, de perfeição, e soube construí-la.
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Qual o trono desse novo rei? A cruz. É no alto da cruz que Cristo confirma a plenitude da humanidade, regendo-a. O homem só pode afirmar-se como plenamente humano – portanto, divino – quando ele consegue aceitar sua condição de material, perecível, criatura que necessita de uma força maior, que o transcende.
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Ele precisa aceitar aquilo que de fato é. Tudo que extrapola essa realidade vai de encontro à Vontade Divina, criando-se, logo, um distanciamento de Deus, que dói, e nos empurra para baixo: eis aí o inferno.
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“Salve-se a si mesmo...” (Lc 23, 35), “Você pode não sofrer...”, “Há caminhos menos dolorosos...”, “Você pode reinar sobre nossa terra...”
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Cristo mostrou, entretanto, que era necessário ultrapassar a lógica de uma dominação meramente terrena. O homem precisava ser senhor de sua própria realidade, saber olhá-la de forma integral. Prazeres individuais, caminhos fáceis e dominação temporária são coisas perecíveis. O homem é chamado a ir além, estar acima de tudo isso.
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“Salva-te a ti mesmo!” (Lc 23, 37), “Se dominas a situação, podes sair disso...”, “Tens o poder de descer da cruz...”.
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Por que poderia dizer um “sim” ou um “não” ao sofrimento, Jesus soube ser livre. Sua dor foi abraçada sem nenhuma coação. Ele quis mostrar ao homem que o sentido da vida não estava em não sofrer, mas em saber que essa realidade é uma condição natural da vida.
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Fugir dela é estar preso em um desejo desenfreado por um bem-estar que, mais cedo ou mais tarde, sempre nos frustra. Ele nos decepciona porque aparece e desaparece constantemente e não temos controle sobre ele. Andar livre é saber que não sou dependente de um prazer para viver, tampouco tenho que fugir de uma dor.
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“Salva-te a ti mesmo e a nós” (Lc 23, 39), “Eu também preciso levar vantagem nessa situação...”, “Preciso de um Deus que atenda às minhas necessidades...”, “À minha imagem e semelhança...”.
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Gostamos de ver o Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte, mas temos muita dificuldade em vê-lo na cruz, sofrendo ou morto. Por quê? Esperamos os benefícios que ele nos oferece pelo seu sacrifício, mas esquecemos da completude de sua mensagem: para entrar na glória é preciso passar pela cruz, ou seja, construí-la no esforço.
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Àquele que compreendeu o mistério do Cristo crucificado, foi dada a promessa: “ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Reconhecer a mensagem de um Deus que se encarna e mostra ao homem o caminho a ser seguido é aproximar-se do mistério da ressurreição.
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O indivíduo que foi suspenso numa cruz estava acima de muitas coisas. Mais do que isso, sabia que estava acima de tudo, de qualquer dor, humilhação ou injustiça. Ele não se deixava afetar por nada disso, pois era livre. De fato ele sabia governar aquela situação, administrar aqueles fatos de corrupção, fraqueza e negação humana. Por quê? Ele era o Rei da Humanidade, do cosmos que nos permeia, ou seja, era Rei do Universo.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Ir às raízes

“A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego. Pois, paz sem voz não é paz, é medo.”
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O conflito que vimos se ampliar no Rio de Janeiro, no Complexo do Alemão, foi reflexo de uma problemática muito mais ampla do que imaginamos. Não estávamos somente diante de um conflito entre soldados e traficantes ou heróis e bandidos, mas diante de um mundo da vida fundado na injustiça e no privilégio de poucos.
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Ao lançar um grande número de soldados naquelas favelas, o Estado e os que o apoiavam estavam como que somente a remexerem em um grande entulho. Entretanto, não se levava em conta que tráfico, assassinato, roubo e seqüestro são apenas a ponta de um iceberg, de um problema que encobre mais do que demonstra.
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A invasão pode ter sido um sucesso. Todos os procurados podem ter sido descobertos, mas isso não representaria a solução dos atuais conflitos sociais.
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A música A paz que eu não quero, composta por Marcelo Yuca, critica uma paz que é construída sobre o silêncio de muitos. Uma tranqüilidade que construída sem a análise aprofundada dos conflitos, somente pela força das armas de uns mais fortes “não é paz, é medo”. O homem, e nós cristãos, principalmente, não podemos aceitar uma paz construída com armas, é preciso ir além, ir às raízes.
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Invadir, prender, calar e matar, são, de fato, soluções mais práticas, mais fáceis, mas solucionaria tal problemática? Se todos os marginais fossem isolados da sociedade, teríamos, realmente construído a paz que tanto desejamos para o nosso mundo e para a nossa vida? João Batista, ao olhar para o mundo em que vivia, profetizava: “O machado já está na raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada no fogo” (Mt 3, 10). Se ficamos retirando da sociedade somente os frutos ruins e não formos à raiz de sua organização para verificar o porquê de tanta barbárie social, correremos o risco de perder os frutos que ainda permanecem intactos.

O que leva um homem a comercializar drogas ou a se drogar? Ou a retirar os bens de outros? O que impulsiona um indivíduo a, diante de um semelhante, retirar-lhe a vida? Que raízes alimentam esses frutos? Isolá-los ou eliminá-los seria a resposta? O que podemos fazer ainda com essa árvore? Podá-la ou replantá-la? Ela precisa ser mesmo totalmente lançada ao fogo?
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É preciso, portanto, rever nossos conceitos de justiça e paz social. Punir quem inflige a lei é sempre mais fácil do que rever as bases que fomentam uma estrutura comunitária. Silenciar com armas e leis um problema é muito mais fácil do que revertê-lo, por que dá mais trabalho e requer o interesse de reverter algumas posturas e compreensões de mundo que podemos não estar dispostos a mudar.
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Podemos ter a certeza de que esse problema pode ser silenciado, e o foi, segundo as ações que foram desenvolvidas naquele local. Mas devemos lembrar que um silenciar é diferente de um solucionar, pois o ato de encobrir um conflito e esquecê-lo temporariamente representa o ato de colocá-lo sob panos quentes . Porém, quando esses esfriam, o que estava escondido volta com muito mais força e poder de dano.
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Para construir a paz que queremos é preciso ir às raízes, não silenciar, pois “paz sem voz não é paz, e medo”.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A dinâmica da vida

Quando estamos diante dos diversos meios de comunicação e nos deparamos frente a casos de criminalidades assombrosas, corrupções alarmantes, desastres naturais inimagináveis, ações espantosas de pessoas que nunca esperamos, somos logo tentados a associá-los a velha imagem do fim do mundo. Será mesmo que estamos nos aproximamos de um fim ou isso é um sinal que a vida não é tão perfeita como imaginamos?

Deus quando criou o mundo do caos, colocou uma ordem nessa realidade: o mundo deveria evoluir. Sua inteligência não apenas criou, mas dispôs tudo segundo um determinado projeto de perfeição. A própria imagem do Cristo como plenitude da criação nos dá essa compreensão. Tudo tende para Ele, é com Ele e por Ele.

Entretanto, essa evolução da natureza, tendo o homem como centro, ocorre de forma material, portanto, contingente. Ou seja, se estamos diante de realidades materiais e históricas, estaremos conseqüentemente perante seres e realidades falíveis, passíveis de corrupção, possíveis de destruição.

Nesse sentido, não podemos projetar a responsabilidade das desgraças de nossa vida para Deus. Destruir homens ou o próprio mundo, em último caso, seria entrar em contradição com a obra da criação que deveria levar tudo e todos para Cristo, isto é, para a plenitude.

Se eu dirijo em alta velocidade, de forma irresponsável, descumprindo normas ou apenas me descuido em algum momento e me acidento, seria mesmo responsabilidade de Deus tal resultado? Se eu moro em um ambiente passível de desastres naturais, posso colocar a culpa em um terceiro se sofro as conseqüências de um maremoto, terremoto ou coisa semelhante? Se ajo de forma leviana com os outros e sofro as implicações de minha postura, poderia afirmar que Deus me abandonou ou sofro por causa de sua ira?

A física nos ensina que toda ação gera uma reação. É aí que a inteligência de Deus se manifesta, como realidade que circunda a minha vida, não como um juiz que bate o martelo a cada ação isolada. É nesse sentido que a imagem de um fim para o mundo ou para os homens pode aparecer: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los, diz o Senhor dos exércitos, tal que não lhes deixará raiz nem ramo” (Ml 3, 20a).

A “morte” do pecador ou o fenecimento, mais cedo ou mais, de uma ação equivocada reflete que nosso mundo tende para uma perfeição, para uma evolução que vai desembocar na plenitude da humanidade e não na sua destruição. E é o próprio Jesus que nos enche de esperança: “É preciso que essas coisas aconteçam primeiro...” (Lc 21, 9). É preciso que as desgraças, os equívocos, as criminalidades e as conseqüências de todas essas se manifestem para que possamos aprender a dinamicidade e a ordem, querida por Deus, disposta no mundo.

Ações naturais ou provocadas pelos homens geram mortes porque agimos de forma equivocada, a “condenação” foi apenas uma conseqüência lógica, a reação motivada por uma ação limitada. Quando agimos de forma equivocada estamos “gerando” o mal e o primeiro a sofrer com ele é que está mais próximo. Esse fim material do erro também é o sinal de que a providência divina está sempre a retomar a criação em suas mãos quando o homem a corrompe.

Quando o anjo do Senhor anunciou a Maria que ela seria responsável por gerar em sua vida a Palavra de Deus, ela não aceitou de forma utópica ou ideal tal proposta. A jovem de Nazaré sabia as possíveis conseqüências de sua opção, aquele não seria um caminho fácil, era preciso entregar-se, abaixar-se, humilhar-se até aquele “eis-me”. Foi por meio daquele sim sacrifical que a Vida plena entrou no mundo, uma ação de entrega que teve uma reação salvadora, não só individual, mas universal.

Que nós também possamos, paulatinamente, compreender a dinâmica do Reino de Deus que se manifesta a cada momento de nossa história. Ele não é uma realidade projetada por uma vontade frustrada, mas é material, é força que nos abraça e nos acompanha no caminho que nos pede um sim à humanidade que nos circunda, um sim à perfeição que nos atrai para Si.

Um sim à vida

Comemorar o dia de todos os santos é, antes de tudo, lembrar que todos os que abraçaram a proposta anunciada e testemunhada por Cristo são chamados também à santidade. Essa, porém, deve ir muito além de uma vaga compreensão de homens modelos ou seres que se presumem paradigma para toda ação. Santidade é buscar uma perfeição para a nossa vida. Essa plenitude, porém, não se encontra tão distante do que pensamos.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em um de seus aforismos desenvolvidos no livro A gaia ciência, apresenta o conceito de eterno retorno. Ele inicia com a imagem de um espírito que chega até nós e afirma que a vida a qual participamos, tudo que já vivemos, de bom ou ruim, se repetirá eternamente. O filósofo pergunta: O que faríamos com esse espírito? Agradeceríamos a ele ou iríamos amaldiçoá-lo para sempre?

Essa ilustração trás como pano de fundo outra problemática: Como estamos lidando com a nossa vida? Estamos aceitando a sua realidade como conjunto de subidas e descidas, vitórias e fracassos, dor e prazer, alegrias e tristezas...? Ou estamos buscando somente o que ela pode nos trazer de bom? Se assim o for, não estaríamos construindo uma vida ideal que, mais cedo ou mais tarde, tenderia para a frustração?

Buscar, portanto, a plenitude da vida é desenvolver um movimento de aceitação de sua realidade contingente, ou seja, dinâmica, que está em constante mudança. Nesse caminho, o sofrimento deixa de ser uma realidade que deveria ser rejeitada, pelo contrário, passa a ser visto como uma realidade que nos molda e aperfeiçoa no nosso caminho rumo à perfeição.

O livro do Apocalipse de São João apresenta a visão daqueles que estão gozando da felicidade plena: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Eles conseguiram algo que muitas vezes rejeitamos: abraçar o sofrimento como um fator constitutivo da nossa humanidade. A limpidez de sua aparência se mostrou por que eles estavam transparecendo a sua própria natureza: a humana.

O próprio João, em sua primeira carta, fala desse modo de espera: “Todo o que espera nele [em Cristo] purifica-se a si mesmo, como também ele é puro” (1 Jo 3, 3). Andar nos passos do Cristo, como aquele que soube aceitar a vida na humildade, sacrifício e entrega plena, é abrir as portas para o mistério da ressurreição, da alegria de ser confirmado na nossa opção pela vida.

Jesus é quem, de forma plena, nos apresenta, nas promessas das bem-aventuranças, o verdadeiro caminho para a santidade. Tais bem-aventuranças não são um conformismo vazio diante de uma realidade injusta e desregrada, mas no dá a esperança de que, se perseverarmos na nossa opção primeira pela conformação ao Cristo, receberemos a recompensa prometida por Ele. Quando conseguirmos compreender a necessária aceitação à humanidade que nos é dada, o céu se abrirá realmente para nós e conseguiremos contemplar o Filho do homem, Cordeiro vivo. Aí é que seremos felizes, nesse momento é que seremos santos.

Não há maior exemplo de criatura que soube construir a santidade como aquela que gerou e cuidou do Filho de Deus. Maria soube aceitar a sua condição de serva do Senhor, por isso soube se rebaixar diante seu projeto. Sua santidade foi sendo construída não porque ela fez o projeto da encarnação, por ter humildade, por ser obediente, mas simplesmente pelo fato de que ela soube apenas participar da condição de criatura, se integrar na proposta de uma humanidade prometida por Deus, uma humanidade ansiosa por felicidade, uma humanidade desejosa pela perfeição.

Filhos da promessa

No Brasil, após cada período eleitoral, sempre surge um novo rosto político e, com ele, o reflexo de toda uma estrutura social que está por trás. O último, e mais comentado, foi o do Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca. Ele foi escolhido deputado federal do Estado de São Paulo com cerca de um milhão e trezentos mil votos, sendo o político eleito com mais votos em todo o país.

Mesmo que por baixo dessa imagem esteja o fato de que ele fora inserido em um jogo político, sua escolha refletiu também um olhar da população sobre a atual situação nacional. O fato de que ele fora utilizado como sinal de uma articulação política para eleição de outros candidatos que estavam na sua legenda não esconde a realidade que permeia e antecipa tal joguete.

O cidadão do estado de São Paulo elegeu um palhaço para representá-lo porque estava vendo que os economistas, médicos, empresários e professores não estavam dando conta do recado. Mais do que uma manipulação maquiavélica, a escolha de Tiririca demonstra que o brasileiro não está satisfeito com a situação representativa que vê, está perdendo suas esperanças. Ao elegê-lo, espera-se que ele brinque menos com o povo do que os grandes homens do mundo político.

Ficar em uma eterna luta judiciária pela elegibilidade ou não daquele homem pode ser uma perda de tempo, já que o grito de crítica e denúncia já foi dado. A verdade e sinceridade que estava por trás de seus “argumentos políticos” já podem ser consideradas bons indícios de um caminho representativo.

Essa realidade deve ser compreendida de forma mais abrangente: o povo não está satisfeito com os políticos que têm e quer colocar qualquer outra pessoa que não venha com a mesma postura clássica de dominação. A esperança do povo é colocada nas mãos de um palhaço, analfabeto e sem história política.
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Podemos questionar: Será mesmo que ele pode representar o povo? A resposta do livro da Sabedoria é afirmativa, pois tal situação é reflexo de uma ordem que se nos impõe por meio da inteligência Providencial. Assim, proclama o autor sagrado em relação ao Senhor e para Ele: “Sim, amas tudo o que existe e não desprezas nada do que fizeste; porque se odiasses alguma coisa, não a terias criado” (Sb 11, 24).
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Assim, continua: “O teu espírito incorruptível está em todas as coisas!” (Sb 12, 1). Deus se manifesta nas realidades que menos esperamos e é capaz de mudar a vida de todo aquele que busca a salvação por meio de gestos pequenos ou insignificantes. Todas as coisas caminham naturalmente para Deus. Nós somos quem, muitas vezes, queremos distorcer a realidade e impedir que essa manifestação ocorra.
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Saibamos, portanto, olhar para essa nossa realidade e não ver somente um jogo de corrupções e interesses individuais, de brincadeiras e desmoralização política, mas a possibilidade de se poder sonhar com um novo país onde não só quem tem o poder financeiro é capaz de dominar politicamente. Saibamos ver que aquele “homem é um filho de Abraão” (Lc 19, 9), um filho da promessa, e que, assumindo ou não, ele já deu o seu recado à sociedade: precisamos de homens simples, sinceros e autênticos no poder, que representem, efetivamente, os interesses do povo.
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Maria foi aquela que acreditou na proposta inusitada de geração de um Deus em seu próprio seio. Porém, ela soube ver nesse conflito a possibilidade de salvação da humanidade. Seu silêncio, simplicidade e entrega ao serviço gratuito foram os fatores essenciais de uma caminhada de geração da Palavra salvadora pronunciada por Deus em Cristo no seio da humanidade.