terça-feira, 2 de agosto de 2011

Tornar-se pão

A maior parte das informações que vemos na mídia envolvendo a ação política parece estar sendo resumida em uma palavra: corrupção. Porém, como surge tal prática? Por que tantos casos envolvendo pessoas que deveriam representar e cuidar dos bens públicos?


Outra palavra surge para explicar e iluminar a prática da corrupção: individualismo. A comunidade contemporânea vive a cultura do “cada um por si e Deus...”. E Deus é esquecido. A marca de uma sociedade fundada na quantificação das coisas e das pessoas é a fragmentação das relações.


Max Weber (1864-1920), filósofo e sociólogo alemão, apontou que a sociedade de seu tempo vivia uma “instrumentalização da espécie”. O homem não era mais “ser humano”, mas coisa a ser quantificada e qualificada por suas ações e habilidades. E esse conceito não mudou. A conseqüência direta dessa realidade é um indivíduo que se preocupa mais consigo mesmo do que com os outros.


A filosofia assumida passa a ser a do “primeiro eu, segundo eu, terceiro eu...”. Não se trata mais de uma hierarquia de importância onde o indivíduo se punha primeiro em relação aos outros – o que já seria alarmante –, mas de uma absoluta negação do outro como pessoa possuidora de uma dignidade.


Na celebração de Corpus Christi, entramos na dinâmica do Deus que se torna pão. Jesus Cristo se apresenta como aquele que se entrega aos homens para a sua salvação: “Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6, 51).


Aqui nos é apresentado um modo de relação baseado no amor caridade. Não há hierarquia de direitos nem privilégios, não há instrumentalização da espécie, há fragmentação de relações, o que há é somente amor entrega.


O Cristo quando se apresenta como pão que alimenta e salva, aponta para o fato de que o seu modo de ser, encerrado em sua pessoa, apresenta um alimento que dá sentido à nossa vida, nos dá forças para enfrentar uma estrutura social marcadamente desigual. O Cristo Pão, torna-se alimento quando se entrega à serviço do homem, para a sua edificação.


Contrária à corrupção está a caridade, uma prática que centra-se no amor ao outro por primeiro. Essa entrega tem como objetivo sempre o bem do outro, a sua salvação. E São Paulo, apresentando-nos essa nossa comunhão com o mistério de entrega de nosso Senhor conclui: “Todos participamos deste único pão” (1 Cor 10, 17).


O Deus que se fez caridade nos ensina que devemos aprender que o sentido de nossa vida não está em acumular bens ou dominar pessoas, mas em encontrar o significado para o qual fomos criados. Assim Moisés compreendia essa realidade ao afirmar: “nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8, 3).


Entrar na dinâmica do pão que se parte e serve a outras pessoas é caminho de vida, e vida eterna. Isto não é retórica, mas um fato histórico apresentado na pessoa de Jesus. Aquele que soube doar-se pelos outros, servindo-lhes, corrigindo quando necessário, sofrendo e até morrendo, foi aquele que ressuscitou. Ele, como pão, chegou à eternidade.


A jovem de Nazaré é aquela que soube entrar também na dinâmica do pão partido. Entra, deixando muitas possibilidades, aprendeu a servir e a entregar a sua vida em favor de outras pessoas. O mistério da redenção de Cristo passou por aquela que se entregou a um amor caridade, fazendo real o próprio amor.


Que nós possamos entrar nessa realidade de um tornar-se pão. Esse “tornar-se alimento” implica a entrega para o bem de outras pessoas. Contrário a uma objetivação da espécie e a uma ética individualista, o mistério da Eucaristia nos reflete o homem que se tornou pão e, tornando-se comida, fez-se Divino, abrindo para nós as portas da eternidade.

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