quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Silêncio: o caminho da cruz


Quem assiste ao horário eleitoral gratuito, à propagandas nos diversos meios de comunicação ou participa de comícios realizados pelos candidatos a cargos públicos nesse período eleitoral se depara com um alto número de julgamentos e críticas em relação às oposições.

É gasto muito tempo acusando as limitações dos outros, as suas ineficiências políticas e as falhas de um passado pessoal, ou seja, tenta-se vencer provando que o outro é incapaz, e que quem critica tem menos erros, por isso, deve ser eleito. Nesse movimento, é esquecida a atitude essencial de quem quer trabalhar pela comunidade por meio de um regime representativo: as propostas de governo.

É deixado de lado o fato de que estamos precisando mais de atitudes do que de pensamentos. Necessitamos mais de propostas concretas do que de análises sociais vagas, muito menos de críticas destrutivas aos erros alheiros.

É evidente que esse é um jogo político aceito por considerável parte da população. Isso porque ela também está envolvida em uma estrutura social que preza pelo olhar externo em relação a um primeiro progresso pessoal interior.

O livro da sabedoria é enfático ao dizer: “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas” (Sb 9, 14). Estar diante do outro é estar perante o reflexo da atitude criadora de Deus, portanto, de um mistério divino. Lançar conceitos sobre alguém é julgá-lo, é querer conhecer todas as condições que envolvem o outro e o fazem tomar qualquer postura.

O caminho para superar esse ajuizamento sobre o outro é apresentado pelo próprio Cristo, nas palavras de Lucas: “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14, 25-27). Caminhar segundo os passos de Jesus Cristo implica, portanto, um despojar-se, um calar-se diante do mistério do Outro, manifestado pelas ações humanas e sociais.

Ser discípulo é caminhar segundo um mestre, seguindo os seus passos. Jesus realizou o caminho de obediência à vontade do Pai: ser Palavra de Deus entre os homens. Nós, como criaturas, devemos confirmar a nossa condição querida por Deus: homens plenos. Essa plenitude não pode ser construída se não tivermos em mente que temos uma cruz a levar. Carregá-la já requer um esforço extremo, olhar para fora ou para as cruzes alheias torna seu peso insuportável.

O despojamento significa que nossos bens, habilidades, conhecimentos e até mesmo nossos laços humanos não são capazes de trazer felicidade para a nossa vida, não são, portanto, um fim em si mesmo. Se eles não são instrumentos para realizar a vontade de Deus, algo está errado e deve ser corrigido.

Silenciar diante desse mistério é a verdadeira atitude que devemos ter diante de muitas realidades que enfrentamos e que não podemos solucionar, pois vai além de nossa humanidade. Deixar-se conduzir por essa proposta Divina de humanização do homem é o verdadeiro caminho.
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Maria é o nosso modelo maior de silêncio. Ela soube calar-se diante da promessa de que a geração de Jesus traria sofrimento para a sua alma. Ela guardou no coração o fato de que seu filho tinha uma missão extraordinária. Soube também chorar silenciosamente a dor do Cristo, morto numa cruz, pois sabia que a verdadeira vida estava além daquele fato.

Que nós possamos, a partir desse exemplo, aprender a silenciar diante do outro. Ele é a manifestação de um Deus que vai além de nossas compreensões e julgamentos. Saibamos olhar mais para nós, para a nossa cruz e buscar o verdadeiro sentido de vida que está na obediência à nossa verdadeira missão: ser homens perfeitos, homens felizes.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Homens humildes, criaturas perfeitas

Nesse período de eleições somos convidados a analisar a postura de muitos daqueles que se candidatam aos cargos públicos. Alguns justificam a sua eleição pelos projetos e obras que já realizaram. Cria-se uma imagem de super-homens dessas pessoas a partir dos trabalhos que já fizeram em benefício do povo.


Entretanto, muitas vezes é esquecido o fato de que tais trabalhos não devem ser vistos como méritos dessas pessoas, mas como obrigação daqueles que são eleitos para representar a vontade da população dentro de uma estrutura democrática de governo. Ninguém, portanto, deve justificar suas candidaturas pelo que realizou, mas pelas propostas novas que trazem para melhorar a sua comunidade e, com isso, realizar o seu serviço público.


Essa postura é reflexo de uma concepção social que põe o homem no centro de todos os acontecimentos históricos e políticos. Ele passa a se definir como a única causa, justificação e agente dos fenômenos políticos e morais. Como centro, o indivíduo compreende-se como criador e governador de uma estrutura global que, devido às limitações humanas, foge, muitas vezes, ao controle do homem.


Frente às adversidades psíquicas, sociais e naturais presentes na história, quando não há nenhum valor moral que possa dar norte ao homem e às suas ações, mais cedo ou mais tarde, ele sempre vai se perder em suas opções individuais.


Quando Deus nos aponta a perfeição como meta primeira, ele nos propõe que assumamos o lugar que nos foi preparado: o de criaturas de uma realidade Divina, não o seu lugar. O dicionário Aurélio apresenta o termo perfeito como aquele ou aquilo que “reúne todas as qualidades concebíveis, ou atingiu o mais alto grau numa escala de valores”, e aquele ou aquilo que é “completo, total; rematado, acabado”.


Ser perfeito, portanto, não significa, como a promessa feita aos nossos primeiros pais, ser como deuses. O homem “completo” é aquele que encontrou o verdadeiro sentido de sua existência: o reflexo da criação amorosa Divina de seres que poderiam assumir, livremente, a sua proposta. Nesse sentido, o caminho pelo qual podemos verdadeiramente chegar a essa plenitude da vida não é outro senão pela humanidade. O instrumento para essa construção, que não é palpável (cf. Hb 12, 28), não pode ser outro diferente da humildade.


Sentir-se servo diante da realidade Divina que se manifesta continuamente por meio da história humana e obediente ao seu caráter providente, que ensina a cada dia a olhar a sua Palavra, os grandes exemplos humanos e o mundo, como mestres para o nosso crescimento pessoal e comunitário, é a primeira via dessa humildade. A segunda se dá por meio do ato de se pôr diante do homem como mistério. Como criatura de Deus, a pessoa humana não pode mais ser vista como mero objeto de manipulação, ela vai sempre além. Como produto de uma complexa estrutura histórica, biológica, social e psíquica, o indivíduo deve sempre ser compreendido como mistério, reflexo de um Deus que foge às lógicas e raciocínios humanos.


A promessa de elevação da pessoa que se humilha (cf. Lc 14, 11) diante do mistério de Deus presente na história humana por meio do outro ou dos acontecimentos por ele realizados é o caminho para a construção de sua felicidade, de sua completude.


Tomemos Maria como exemplo. Ela foi assunta ao céu porque soube curvar-se diante do mistério do Outro, do Deus que queria fazer-se carne por meio de sua Palavra. Porque ouviu ela gerou. Humilhando-se para servir ela conseguiu chegar à plenitude de sua humanidade: ser criatura perfeita.


Que nós também possamos assumir essa postura de servos diante do outro (homem) e do Outro (Deus). Esses são caminhos pelos quais podemos construir um sentido para as nossas vidas, ser mais felizes, ser perfeitos.


Não como centro, mas como servidores em sua comunidade, o homem poder caminhar de forma mais livre e feliz entre os mistérios com os quais ele se depara continuamente em sua existência.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A porta é estreita


O Tribunal Superior Eleitoral – TSE vem, recentemente, apoiando um comercial contra a compra de votos nas eleições desse ano. Em um deles, uma mulher troca um hospital bem equipado por uma dentadura. Em outro, um homem troca uma escola para os seus filhos por uma pilha de tijolos. Fingindo fazer uma grande transação comercial, outro homem vende-se a si mesmo por quatro anos, sendo preso em uma caixa junto a outras pessoas que também se venderam.

Quantas outras realidades poderiam ser a essas acrescentadas? Por quanto ou pelo quê nós vendemos a nossa consciência? Ela tem efetivamente um preço? Por que ela é, algumas vezes, vendida por preços tão baixos?

O fato é que estamos inseridos em uma comunidade imediatista. Queremos as coisas mais fáceis, que exigem menos esforço, que não necessitam de construção ou modificação. De forma equivocada, assumimos o ditado popular de que é melhor um pássaro na mão do que dois voando. Aceitamos realidades já prontas, por que simples, e evitamos construir as mais necessárias, as que são essenciais para a nossa existência individual e comunitária.

Conceitos como esforço, sacrifício, trabalho contínuo e perseverante estão a cada dia desaparecendo em uma realidade social que preza pelo fácil, prazeroso e já feito. É esquecido, porém, que essas opções que não estão bem fundamentadas desaparecerão como surgem: de forma rápida. Se quisermos realmente uma felicidade bem alicerçada, que não se desintegre na primeira adversidade, temos que construí-la no sacrifício. Ela querer algo que, muitas vezes, temos dificuldade em oferecer: tempo e esforço.

A figura da porta estreita oferecida por Jesus Cristo (cf. Lc 13, 24), ao ser questionado quanto aos que seriam salvos, apresenta bem a sua proposta de redenção. O homem só pode entrar no Reino de Deus, ou seja, ter uma vida plena e feliz se ele a construir gradativa e paulatinamente. Aceitar realidades fáceis, que não exijam muito trabalho, é querer entrar pela porta larga, uma entrada, porém, que nos leva a caminhos incertos.

A própria carta aos hebreus compreendeu a mensagem do Senhor quando afirma: “No momento mesmo, nenhuma correção parece alegrar, mas causa dor. Depois, porém, produz um fruto de paz e de justiça para aqueles que nela foram exercitados” (Hb 12, 11). Enfrentar a vida como trabalho que tem seus momentos de alegria e tristeza, dor e prazer, altos e baixos, é exercitar-se para tornar-se plenamente homem assemelhando-se àquele que foi plenamente Deus.

Nesse caminho, ver a dor ou o sacrifício não como um mal, mas como algo participante da vida humana é saber sentir a presença de um Deus que é pai e que está constantemente a nos proteger e ensinar. A carta afirma ainda: “o Senhor corrige a quem ele ama e castiga a quem aceita como filho” (Hb 12, 6). Quando aprendemos a sentir o peso da mão de Deus a nos modelar, nossa existência ganha um novo sentido e qualquer sofrimento transforma-se em alegria.

Maria foi testemunha da felicidade de quem procura entrar pela porta estreita. Ela soube curvar-se para adentrar numa realidade que tinha Deus como soberano e soube aceitar a proposta de salvação do homem ao permanecer, em pé, diante da Cruz. A mãe de Deus entendeu todo o sentido do sofrimento de seu filho quando silenciou diante desse mistério e contemplou a grandeza de sua ressurreição.

Que nós também, ao nos deparar diante de realidades fáceis, possamos nos questionar e saber que vai também fácil o que vem sem esforço. Abramos nossos olhos para as situações já prontas e que não requer nenhum esforço, que são postas à nossa frente. Elas nos desviam da possibilidade de crescimento, de entrar por uma porta que é estreita, mas que nos ajuda a exercitar nossa humanidade diante das inúmeras adversidades apresentadas pela vida.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Crescer somente em Deus


“Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia”. (Lc 1, 39)

Estamos no mundo das grandezas, dos grandes fatos e heróis, das eloqüências e dos amplos eventos históricos e políticos. O homem passa a se curvar diante de toda grande obra realizada sua inteligência.

Uma vida simples, humilde que sabe oferecer, em pequenos gestos, um sinal maior de humanidade aos outros está sendo rapidamente esquecida. O homem passa a querer ser senhor de uma comunidade que ele mesmo não consegue administrar e não sabe conduzi-la porque não tem elementos suficientes para tal. Não sabe ouvir nem ver a história e compreender o Poder que a organiza.

Celebrar a assunção de Nossa Senhora é festejar a elevação de todo homem que entrega a sua vida a Deus de forma livre e gratuita, sem deixar de lado a sua condição humana.

O texto bíblico, ao apresentar Maria subindo apressadamente para a região onde ficava a casa de Isabel, nos mostra o zelo da Santa Mãe de Deus pelo serviço ao próximo. E até mais do que isso, a imagem de sua subida para a realização desse ofício, por simples que fosse, representa também a nossa necessária subida para realizar o nosso ser Cristão.

Maria só conseguiu subir, e subir apressadamente, porque era livre. Ela, ao correr ao encontro de sua prima, ia de mãos vazias, sem muitas bagagens, preocupações ou pré-conceitos. Por simples fosse aquela ajuda, ela a realizava como a mais importante de sua vida. Daí é que começa a ser desenhada a sua humildade, ela sabia construir uma santa existência por meio de pequenos gestos de bondade.

A grandeza feita por nosso Senhor na jovem de Nazaré só foi possível porque ela conseguia gerar Deus a partir das pequenas coisas. Ao cuidar das roupas da família de Isabel, ao preparar a alimentação, no cuidando da casa, ela conseguia realizar um serviço gratuito e amoroso a quem precisava.

Por não estar interessada no que sua prima viesse a lhe oferecer em troca por aqueles dias de serviço, por fazer aqueles trabalhos de forma livre e gratuita, ela conseguia viver a dimensão maior do amor: o ágape, o amor doação, e doação livre. Esse exercício foi tão contínuo em sua vida que Deus resolve a escolher como instrumento de sua encarnação. Por meio daquela que sabia realizar um amor gratuito e contínuo, esse foi materializado em nossa humanidade: Jesus Cristo.

Maria sabia subir sem grandes dificuldades porque compreendia que ia realizar um serviço grandioso e um trabalho que exigiria dela um total despojamento de suas próprias vontades e interesses. Do mesmo modo, também nós que desejamos encontrar o sentido da vida que se realiza na contemplação da face de Deus, realidade perfeita, devemos também correr, decididos, para um serviço de entrega a quem mais precisa de nossa ajuda.

Essa corrida para a realização de um amor doação, assim como em Maria, se dá por meio de uma subida. Essa, como todas as outras, exige nosso esforço e sacrifício para não haver desistência no meio da elevação. Nesse caminho sempre haverá deslizes, tropeços e até quedas que podem nos fazer voltar um pouco, mas, com os olhos fixos na proposta inicial não há como haver desistências.

Possamos ver em Maria o exemplo de serva que foi elevada aos céus porque sabia subir livremente até às alturas do amor gratuito, e de uma entrega livre e integral de sua vida à pessoa humana. Construamos também a nossa elevação à vida feliz. Essa só é possível quando aprendemos a subir, livre e decididamente, para o amor doação que só é pleno em Deus.

Educar para a vida



Educar nunca foi uma missão fácil. Fazer com que o outro compreenda a estrutura social que o cerca não é uma atividade simplesmente técnica a ser realizada por um profissional do ensino. Isso acontece porque não se “ensina” a viver.

A palavra ensinar lembra o “ensignar”, ou seja, marcar com signos, colocar marcas nas pessoas para que elas apreendam (“prendam em si”) um conhecimento externo. Porém a educação deve ir além dessa marcação ou “fôrmação” (“colocar numa fôrma”), pois deve mostrar ao indivíduo que o mundo que ele vai enfrentar é mais sério do que se imagina.

A recente polêmica acerca da violência infanto-juvenil realizada pelos pais abre espaço para uma ampla discussão: Os pais ainda podem continuar castigando seus filhos por meio das “palmadas”?

Esse tradicional modo de “exemplar” os filhos foi, aos poucos, sendo substituído com a contribuição da psicologia e da psicopedagoga. Há outros modos de mostrar aos educandos que a sociedade exige pessoas que sigam normas e limites morais. Técnicas de imposição de regras por meio da punição com privação de algum bem e repetição insistente desse castigo, são exemplos de que a violência pode ser substituída.

Mesmo assim, a palmada foi um modo, mesmo rústico e tradicional, que os nossos pais encontraram para mostrar que há limites para as nossas ações. É um símbolo a afirmar que a justiça presente no mundo pune os que erram, que a dor é uma conseqüência lógica do desvio da verdade e que, cedo ou tarde, ela sempre chega.

É certo que a permissão das “palmadas” realizada pelos pais já levou a muitos abusos. Mortes, traumas e a geração de mais violência familiar e social tendem a se multiplicar a partir do momento em que tais crianças são castigadas de modo absurdo. Mais do que um castigo ou um modo de exemplar, esse tipo de violência excessiva é reflexo de uma estrutura social que também é violenta, sem limites e valores que possam ser nortes para as suas ações.

A grande responsabilidade que é dada aos pais de educarem os seus filhos para a vida está dentro da proposta evangélica do servo que recebe a grande responsabilidade de guardar os bens do senhor (cf. Lc 12, 36ss). A grandeza na geração, cuidado e educação das crianças que é dada primeira e fundamentalmente à família é uma missão que requer mais do que técnica mas, um amor que é doação e esforço contínuo para querer o bem do outro.

Fazer com que o outro compreenda que a vida possui um conjunto de valores e normas a serem respeitados é um dos principais focos da educação, ao lado da participação crítica social e da construção de um mundo justo e fraterno.

Saber que a punição é a conseqüência necessária para os que optam por caminhos equivocados seria o sentido principal das “palmadas”. Entretanto, essa se transforma numa faca de dois gumes na medida em que se perde o controle dessa simbologia, do sentido desse “exemplar”, gerando uma violência que cresce gradativamente.

Que tenhamos o exemplo daquela que foi a maior educadora de todos os tempos. Maria é verdadeira mãe que soube ensinar ao seu filho que o caminho da vida feliz estava na obediência integral à vontade de Deus. Ela sabia da responsabilidade de gerar no seu ventre o Filho do Homem, aquele que, sendo verdadeiramente humano, foi verdadeiramente divino.

Devemos ver na mãe de Jesus o exemplo daquela que soube ensinar que a construção do homem estava em uma vida simples e modesta, organizada por uma ordem disciplinar da vida. Deixar de corrigir seria um risco que os pais correm em entregar ao mundo pessoas não preparadas para enfrentar as suas vicissitudes. Os reflexos de uma omissão familiar estão sendo enfrentados por todos nós que somos vítimas da violência, dos vícios e das múltiplas corrupções.

Aprendamos a ter esse temor (cf. Lc 12, 48) diante desse grande encargo que é educar para a vida e, mais ainda, tremer diante do homem que deve ser modelado à luz do Filho de Deus que soube aceitar a sua plena condição de criatura e por isso soube viver plenamente a sua existência.

Ricos para Deus


Se Deus pedisse contas de nossa vida ainda hoje, o que apresentaríamos a Ele? Se nossa vida tivesse um fim, o que deixaríamos de exemplo para aqueles que nos cercam? O que faria com que nós permanecêssemos na memória dos nossos conhecidos? Quais ensinamentos e testemunhos estaríamos deixando para a comunidade em que vivemos?

A festa de Sant’Ana da cidade de Caicó, assim como tantas outras grandes festas de nossa cultura é o momento em que nós devemos voltar os nossos olhos para o sentido de nossas práticas e posturas. É o momento em que as famílias se encontram, renovamos as nossas raízes culturais e históricas e damos o sentido de nossa fé. Mas é o momento onde alguns fatores de uma cultura consumista e exterior também podem se revelar.

A proporção entre os que participam dos eventos religiosos e todos os outros que vão para os encontros somente sociais é grande em relação a esses. Isso revela a postura de que estamos mais interessados em mostrar o que temos e somos em detrimento do que realmente somos ou possuímos.

A “perca de tempo” em estar diante de uma celebração litúrgica ou o sacrifício por qualquer outra ação religiosa ou simplesmente humana é facilmente trocada por um momento de descanso ou lazer com o que mais gostamos fazer ou “merecemos” diante de um mundo de tantos trabalhos e esforços. Silenciar em um período de nosso dia ou repensar os nossos valores tornou-se uma ação cada vez mais complexa em uma cultura como a nossa.

A mentalidade de um acúmulo irrefletido ou de uma técnica sem limites faz com que o homem se torne escravo de suas próprias ações, não conseguindo nem mesmo refletir sobre o sentido de suas práticas. A riqueza ou os bens que ela proporciona passa a ser buscada como um fim em si mesmo, sem um questionamento mais aprofundado sobre o seu valor para o homem e a sua comunidade.

É o próprio Verbo de Deus, feito homem, quem nos adverte: “... mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens” (Lc 12, 15). As posses materiais, motivadas por uma estabilidade econômico-financeira, devem fazer com que o homem tenha uma vida com dignidade, junto com os que estão próximos dele. Feliz e em paz, ele pode ser reflexo do desejo de Deus de mostrar-se através de um homem plenamente realizado.

Entretanto, a vida do homem não depende de seus bens pelo fato de que ele não é só matéria, mas espírito, emoção, razão e trabalho, indo além do meramente físico. Prova disso é o próprio mistério da ressurreição de Jesus que fez com que ele fosse sempre lembrado para sempre a partir do momento em que se olhou para todas as suas ações e seus ensinamentos e comprovaram que ele estava vivo. Os discípulos de Emaús também abriram seus olhos para o fato de que a morte não tinha acabado com a cruz, mas que os ensinamentos de Jesus deixaram provas concretas de sua presença enquanto as suas ações fossem repetidas.

A Maria é o exemplo de um serviço e uma entrega a Deus que se constituiu de forma gratuita. Qualquer riqueza que estivesse a sua frente era considerada um nada diante dos bens que Deus daria por meio daquele sim livre, não só a ela, mas a toda humanidade. Todo o culto que prestamos a ela se reveste de admiração por uma riqueza que foi construída sobre a obediência, pobreza e simples dedicação ao mistério de geração do Filho do Homem.

Que nós também possamos nos preocupar diante de uma riqueza material que é colocada acima da própria pessoa humana. O homem, como plenitude da criação, deve ser sempre o centro de todas as ações humanas, a maior riqueza social e o motivo de nossas ações na busca da glorificação de uma humanidade sempre atenta à construção dos bens de Deus.

Família, comum unidade, comum doação


O recente caso do crime cometido pelo goleiro Bruno contra a sua namorada, seguido pelo fim trágico que ele deu ao corpo daquela mulher, assim como as discussões sobre a desburocratização no processo de divórcio apontam para uma estrutura familiar que se vê em xeque. Não podemos tratar tais casos como fatos isolados que merecem reflexões distintas, pois ambos são produtos de um modo de relacionar-se que se fundamenta em uma troca material de favores.

Em uma cultura que valoriza o homem pelo que ele pode oferecer de objetivo para a comunidade, as relações sociais passam a ser permeadas também por essa “troca de favores”. O casamento, como uma instituição que manifesta mais um modo humano de relacionar-se, não foge a essa influência.

A justa procura por um divórcio que seja “instantâneo” é reflexo de um conflito que é mais amplo e complexo do que se imagina. Os casamentos estão se tornando cada vez mais instáveis. Tal inconstância é produto de uma falta de clareza e planejamento de vida quando se refere à opção por uma vida comunitária familiar.

A busca de uma união que se fundamenta somente na troca de bens, na utilização do parceiro como meio para o próprio bem estar, é o motivo fundamental para a descoberta de que a união conjugal não se sustenta por essa troca de bens que são perecíveis. A instantaneidade de uma separação fomentaria somente a busca de uma nova relação que desse satisfação à pessoa, mas que a levaria a mesma conclusão: a beleza, ao prazer ou a riqueza são passageiras.

O assassinato cometido pelo goleiro foi um dos vários conflitos que surgiram diante de um tipo de relação mal planejada, levada somente por interesses imediatos. A necessária responsabilidade mútua, que é fator indispensável na relação conjugal, foi negada perante uma busca de felicidade individual e não partilhada.

A imagem evangélica de um Deus que é Pai, e por isso cuida dos seus filhos, e lhes dá o que é melhor nos lança para a proposta de construção de uma família cristã. Os pais, como os primeiros a construírem tal comunidade, são responsáveis por uma disponibilidade que faz com que o bem do outro venha antes do seu próprio.

À semelhança de Deus, que dá o melhor de si, que é seu próprio Filho, Jesus Cristo, para a salvação dos homens, a família que quer seguir essa mesma proposta de felicidade deve também ter a doação como primeiro movimento dessa busca. Pais que deixam de lado muitas de suas opções para a educação de seus filhos bem como filhos que se deixam ser modelados pelos pais ainda são vias para uma comunidade menos materialista e individualista e mais humana.

A festa de Sant’Ana é o momento para refletir sobre o valor de uma família. Ao olhar para imagem daquela que foi a avó do Salvador, não devemos ficar encantados somente com sua beleza e o seu valor simbólico ou histórico, mas devemos ser capazes de ver a grandeza de ensinamento que ela nos traz. Mais do que uma imagem, ela nos educa para ver a família como berço de construção de homens e mulheres firmes na fé e na opção pela vida.

Maria é exemplo dessa proposta. Ao ser educada no colo de sua mãe sobre os caminhos deixados por Deus ela se abre a esse caminho e participa diretamente dos planos de salvação da humanidade. Nossa Senhora é fruto de uma estrutura familiar que estava longe de querer apenas uma satisfação individual, mas sim, dedicada à entrega pessoal de cada vida para os planos de construção de uma sociedade mais fraterna.